Slavery to the beat
Slavery to the chord
Slavery to the pleasure
Slavery to the god
pedalero
pedalero
você tem que falar rápido pensar passar mr universe
há uma verdade na loucura
não consigo ir além
e essa febre
Deveria se aquecer
Sem tempo a perder o frio chega com tudo o que tem.
Os gatos dormem aninhados sobre a mesa.
Meu avô nasceu em 1919 em Cunha.
Sua avó era preta.
Ele trabalhou na "praça" como taxista.
Tinha um fusca bordô que depois pintou de um verde sem nome.
Do lado da porta ele costumava deixar o saco de balas de hortelâ. Quando menino eu sempre ia correndo pedir balas quando ele chegava na minha casa.
Ele era legal, acho. Nunca o vi enfurecido. Nunca o vi batendo em alguem, cometendo atrocidades, sei la.
Mas nunca o entendi. Não sei bem em que mundo ele vivia. E depois da esclerose tudo ficou ainda mais nebuloso.
Uma vez perguntei o que ele tinha aprendido depois de 80 anos de vida.
Ele já não sabia me dizer. Já estava esquecendo das coisas, perguntava quem eu era.
Cada vez eu dizia que eu era alguem diferente, não parecia fazer diferença.
Sei lá, não tem nada de poético nisso. Nada de sabedoria. Ou se há, eu não sei enxergar. É apenas frio e vozes do mundo girando, vozes de quem...não há muito que saia de mim. Só estou lembrando o que posso e é tão pouco.
Mas o papel aceita o que escrevo.
O papel nunca é como as pessoas. É tudo imaginação.
Mas na sexta-feira meu avô morreu e aquilo foi real.
Toquei a mão gelada, o rosto sem cor.
Lá no velório minha mente estava branca como uma folha de caderno mas sem nada para escrever nela. Fantasmas entrando e saindo, passando, o tempo.
Estava diferente da outra vez em que minha avó morreu. Eu estava mais firme. Não chorei. Não precisei nem aguentar. É como se já tivesse passado por várias guerras mundiais. E estava mais oco também. E tanto faz.
Falei pouco.
Entendi pouco.
Abracei meu pai que estava em lágrimas. Que também não entendo.
Que não entendo nada. Que só sinto um saco cheio imenso e gelado, cego, sem nada na minha frente, atrás, nada, um boneco de vudu sem alma.
E carreguei o caixão pela alça, me despedi do velho e ele foi baixado na terra.
Muito mas muito frio mesmo.
I dont wanna drown in american society
Dont wanna drown
Dont wanna be found
This is not my destiny
Oh yeah
No twentieth century casualty
Oh yeah
I dont wanna watch television
I dont wanna listen to the radio
I dont wanna drown in american society
Dont wanna be rich
Now cant you see the way they dress
They dress
Well theyre a bloody tax mess
I dont wanna go to the movies
I dont wanna listen to the company
Dont wanna drown in american society
L7
Tem que ter um cara mais chato que ele
No visgo e no barro escuro que sobe até o ombro.
Emaranhados humanos, cabelos e braços e pernas, orelhas, clavículas, reticências e medulas infinitesimais, dedos boiando, pedaços inteiros dentro da mente.
Deixo falando sozinho, sem ressentimentos.
Heaven
I don't need no one to tell me about heaven
I look at my daughter and I believe
I don't need no proof when it comes to God and truth
I can see the sunset and I perceive, yeah
(Live)
história curta do caminhão azul
Meu vizinho Edgar sempre deixa o caminhão azul embicado na ladeira da rua.
Ele acelera por vários minutos até esquentar o motor e toda a fumaça também azul entra em minha casa.
Isso dá raiva às vezes. Não é por mal.
Mas nada é por mal e as coisas seguem capotando.
Uma semana atrás ele sai com o caminhão como sempre faz.
Liga, acelera, espera o motor esquentar, tossimos um pouco, passa o homem da cândida, o de sempre.
Aí ele desce a rua.
E no meio da ladeira ele perde os freios.
E enfia o caminhão azul no muro de uma casa lá de baixo.
Perde três litros de sangue e quase morre.
Tem que fazer uma cirurgia na barriga e continua no hospital até hoje.
Minha raivá dá lugar à tristeza quando ouço essa notícia.
Mas nada desaparece.
Tudo segue, raiva, tristeza, bom, ruim, inútil, capotando em tudo.
Hoje olhei para o caminhão, que é como uma pessoa colorida que vive na rua há anos.
Está arrebentado, com uma lona alaranjada cobrindo o capô velho e sempre azul.
A boleia dele que pintamos há algumas semanas atrás de preto e vermelho e branco, foi toda para frente com o impacto e entortou e quebrou.
Agora o caminhão está embicado para a subida com calços de madeira nas duas rodas.
Não sei se vai se mover de novo.
Apenas continua lá.
Fim.
Como falar com meninas nas festas
(...)Chegamos ao final da avenida que deu numa rua estreita com casas térreas. Tudo parecia muito quieto e deserto naquela noite de verão. "É fácil pra você," eu disse. "Elas te adoram. Você nem precisa falar com elas." Era verdade: um sorrisinho de moleque do Vic e ele tinha quem escolhesse do lugar.
"Nem. Nem é assim. Você só tem que falar."
Nas vezes em que beijei as amigas da minha irmã eu não falei com elas. Elas estavam ali por perto enquanto minha irmã estava fora fazendo algo sei lá onde e elas foram arrastadas para minha órbita e então eu as beijei. Não lembro de nenhuma conversa. Eu não sabia o que dizer para as meninas e foi o que eu disse pra ele.
"Elas são só meninas," o Vic disse. "Elas não vêm de outro planeta."
Enquanto seguíamos ao redor da curva da avenida, minhas esperanças de que a festa não iria ser encontrada começaram a desaparecer: um barulho baixo e pulsante de música abafada por paredes e portas, podia ser ouvido de uma casa logo à frente. Era oito da noite, não tão cedo se você não tem nem dezesseis, e nós não tínhamos. Não mesmo.
Eu tinha pais que gostavam de saber onde eu estava, mas eu não acho que os pais do Vic se importavam muito. Ele era o caçula de cinco garotos. Isso em si era mágico para mim: eu tinha meramente duas irmãs, mais novas que eu, e eu me sentia ao mesmo tempo único e sozinho. Eu queria ter um irmão desde que posso me lembrar. Quando fiz treze parei de fazer pedidos para estrelas cadentes ou para as primeiras estrelas que surgiam, mas lá atrás quando ainda fazia pedidos, era por um irmão o que eu pedia.
Nós fomos pela entradinha do jardim, um caminho louco que nos levava passando uma cerca e uma um arbusto solitário de rosas até a fachada da casa. Tocamos a campainha e a porta foi aberta por uma garota. Eu não saberia dizer a idade dela, o que era uma das coisas sobre meninas que eu começava a odiar: você começa como criança, como meninos e meninas seguindo no tempo com a mesma velocidade, e vocês têm cinco ou sete ou onze, todos juntos. E então um dia há uma sacudida e as meninas desembestam para o futuro na sua frente, e elas sabem tudo sobre tudo e elas tem mentruações e peitos e maquiagem e só Deus sabe mais o quê que eu certamente não tinha. Os gráficos nos textos de biologia não eram substitutos para o fato de elas serem, num sentido bem real, jovens adultas. E as meninas da nossa idade eram.
Eu e Vic não éramos jovens adultos, e eu estava começando a suspeitar que mesmo que começasse a ter que me barbear todo dia ao invés de uma vez a cada duas semanas, eu ainda assim estaria para trás.
A garota disse, "Oi?"
(...)
(How To Talk To Girls At Parties, Neil Gaiman)

"What’s got to be gotten over is the false idea that hallucination is a private matter."
-- Philip Kindred Dick, In Pursuit of Valis: Selections from the Exegesis
"In the America of A Scanner Darkly, there’s no path out of the hall of mirrors. Arctor/Fred prays for an objective, omniscient watcher, be it God or the ubiquitous scanner of the title:
“I hope, for everyone’s sake, the scanners do better. Because if the scanner sees only darkly the way I do, then I’m cursed, and cursed again, and will only wind up dead this way. Knowing very little. And getting that little fragment wrong too.”
But there is another way, a theme that runs through all of Dick’s work. Paranoia, as Arctor/Fred puts it, is “the desertion of your friends from you, you from your friends. Everyone from everyone.”
Paranoia, whether among drug users, in government surveillance vans, or in corporate boardrooms, is a system of alienation.
It’s what Dick would’ve termed an entropic process, one that breaks down the natural human affinity for other humans. Paranoia’s opposite is loving kindness toward others—“caritas” in Latin, “agape” in Greek. Simple empathy, Dick proposed, is the uniquely human trait that allows us to bridge that isolation. It counters paranoia, entropy, and allows us to build realities, however contingent, among those we care about.
It seems like a small thing, caritas, underwhelming in its simplicity. But Dick realized that, too. In a 1970 letter, he wrote, “Perhaps [my critics] are bothered by the fact that what I trust is so very small. They want something vaster. I have news for them: there is nothing vaster.”
(Jesse Hicks)

