sábado, 28 de abril de 2007

Os primeiros cem anos são os piores

Eis-o derrotado
pelos círculos quentes e úmidos

terça-feira, 24 de abril de 2007

Como costurar suas vísceras às seis e meia da tarde

Através do guidão cromado a bicicleta refletia os últimos raios do sol.
Lá do outro lado da alameda uma música passava sem pedir licença.
Vemos Lúcia encostada na árvore, ela que não pedia para a luz brilhar, para as cores mudarem. Olhava para os patos do laguinho.
Não vou pedir, não vou sangrar.
E vemos todas as coisas que continuavam ali sem pedir licença no contínuum do parque. Números de placas, barracas, obturações, encarnações de Heródoto, hieróglifos invisíveis sob o que restava da tarde vermelha e seu rastro, grande pássaro negro que desce do céu agora, já no final do entardecer de uma história com Lúcia que deve sair desses portões, do alto de sua cabeça dividida em sonhos onde as partes se entrelaçam em parte alguma das ondulações calmas das águas, na música rasgada do amor de mal-querer e no guidão reluzente da bicicleta dois metros adiante dos patos que abocanham migalhas de pão.
O homem velho carrega um molho de chaves e anda lentamente até à saída do parque.
Lúcia tinha que criar essa colcha de retalhos no ponto alto do escuro de sua mente onde estaria à salvo até que os portões do parque fechassem. E entretanto, não conseguia evitar de ver seu manto de se encontrar com Deus se descosturando continuamente e sem nenhum ponto solto para reatar, exceto por qualquer coisa molhada que ela não viu quando começou a apertar e torcer para um lado e para o outro quando a noite caiu afinal e ela sacou de pequenas agulhas em espetadas sucessivas enfiadas de energia cinética e louca no suéter do epitélio esquecido, tentando desesperadamente lembrar-se, esquecer-se, que diabo, continuar-se, qualquer bruxa mergulhada na carne mais profana às seis e meia da tarde, despossuída de qualquer fio de esperança, além de qualquer salvação.