quinta-feira, 29 de março de 2007

metamorfo paradoxal

metamorfo para amor que falta
eta amor que para dor que sai
metransforma paradorquesalta

segunda-feira, 26 de março de 2007

mondo cane

natural born incoherent
walk alone
into the bone

sábado, 17 de março de 2007

Exercício II - Ossos

No espaço tempo aberto da asinha da xícara de café.

A bike passa pelo Jardim Hercília como uma superstar. São outras ruas que ela percorre, quase levita. Eu tento disfarçar que o assédio incomoda mas são os ossos do artifício; viver é estar exposto como uma placa de raio-x.
Falando assim pareço eu o American Idol, mas creia-me, é a bike e seu esqueleto dobrável. Na verdade é mais o design do que o fato de ser dobrável. Muitos pensam que é uma bicicleta comum com outro formato apenas.
- Nossa, o que é isso?
- Vixi, da hora.
- Se liga no quadro, bem loca.
- Ih mano, que viagem, nunca vi.
- Ela tem motor né?
- Pra que serve?
- É de competição?
- Essa é sua mercedes hein.
- Esse bagageiro é meio viadinho não é não? (Não, não é não!)
- Muito show, adorei, você pode pôr ela em qualquer lugar.
- Você que montou?
- De onde veio um negócio desse?
Ah, e também pérolas esperadas como:
- Cuidado hein, uma coisinha dessas por aqui...
- Mas é osso, chama muita atenção...
- Fica esperto, se eu fosse você...
- Por que você não faz seguro?

Os pais da ruivinha professora chegaram de carro.
- Tchau.
- Tchau.
Devia ter pedido uma carona no carro com ela, afinal a bike cabia, por que fiquei sem jeito de pedir? Se tudo fosse fácil como pedalar é fácil, vamos, pegue um pouco de chuva.
Vejo muitos gatos pretos no caminho pelo bairro às dez e pouco da noite. Para cada um que encontro paro um instante e chamo: Mishi... Ele olha um pouco de longe, desconfiado, não, não é ele. Será que ainda lembra do nome?
Chego em casa e falta alguma coisa. O Pudico me recebe com seu miado em si bemol.
- Você se sente sozinho?
Mergulhar no delírio do meu trabalho. São 2000 metros de braçadas longas até o amanhecer. O que me consome é o que me mantém vivo, o quanto eu aguentar. Não vejo caminho de volta.
Pela manhã o sol arde na pele e meus olhos estão inchados. O café amargo e a luz forte que me cega. Ossos que estralam, ossos reis imagino, em algum lugar lá dentro.
No outro domingo eu veria o Edgar fazendo consertos na boleia de seu caminhão, xingando e maldizendo a velhice da madeira, porcas enferrujadas e parafusos tortos. Do caminhão? Dele?
Peço uma chave allen para apertar o freio da caçula. O sol está inacreditável, quente e lindo, mas acredite.
- Isso não tem mais jeito não, essa bexiga. Agora é jogar tudo fora e meter uma carroceria nova. Vou fazer o que dá com essa aqui e pintar de preto cor de macumba, hahaha.
Dou risada com ele e percebo que não tem a chave que procuro em sua caixa de ferramentas. É legal de notar o orgulho com que ele exibe seu sotaque nordestino.
- Ih, não tem aí não? Deve ser o Vando que pegou, esse diabo. Sai daqui cachorro da disgrama!
O pequeno e esquelético cão se afasta o quanto pode do caminhão, não muito. Está acabado de sarna e feridas, manco da pata esquerda. Resolveu que não tem mais para onde ir e é evidente que lhe falta disposição para atender a ordem do meu vizinho da frente para deixar a rua. A avó do Felipe, que mora duas casas ao lado da minha, passa no bicho óleo queimado com enxofre e seu aspecto fica ainda mais patético, agora patético e seboso.
Durante a semana no entanto eu veria que o "Sarninha" ainda tinha muito o que mostrar ao mundo e sua condição melhora visivemente. Deixo ração algumas vezes para ele que adota o caminhão como seu teto, para desespero do Edgar que vocifera tudo o que é palavrão cabeludo nos próximos dias. Falo que ele é o "Sarney" e a dona Maria do final da rua se deleita com o nome e que agora tem um cachorro que além de poder servir de guardião das casas pela promessa do tamanho das patas, é a um só tempo "famoso". E eu penso bem nesse nome e me vem uma imagem de coronelismo e bigodes autoritários e coisas podres enraizadas na história da cultura nordestina e no Brasil, que acabo me arrependendo de ter tido e falado uma idéia tão idiota. Espero que o nome não pegue porque o cachorro não tem culpa. Assim são as palavras às vezes se você age sem cuidado.
Depois a Miranda, que é a avó do Felipe, iria levá-lo para seu quintal. Parece que algum outro morador do bairro chamou um fiscal de sei lá o quê e quiseram levá-lo embora e ela não deixou. Já acreditava no cachorro não mais como carcaça moribunda.
No mesmo domingo em que o Edgar mexia no caminhão condenado eu também veria a V na varanda de casa lendo e fumando. A luz pintava uma cena particularmente bonita aquela manhã. Vai ver é porque eu não tinha dormido de noite e o ontem pôde finalmente num instante se colar ao hoje como uma coisa única no corpo do tempo.

O fundo branco da xícara tem agora só uns grãozinhos escuros do pó de café. Alguém veria padrôes de futuro, oportunidades de investimento na bolsa ou outra xícara para lavar.
Como aquela brincadeira de ligar os pontos. Os fótons da mente voam para sempre, no tempo e no espaço de um corpo inquebrável, sem orgãos, sem ossos, de mundo a mundo, de forma a forma, energia pura como Superman.

Quando acordo dou comida para o Pudico que se levanta do bagageiro da bike e estica os ossinhos mágicos de borracha. Você olha e ele é um pitoco, aí se espreguiça e vira um lince de dois metros. Coisa estranha são os ossos e juntas e o que nos molda de várias formas. Falo para ele que é tudo delírio mas ele não concordaria comigo. Tudo é bem real meu caro, isso sim, agora vem me dar um cafuné logo...
"Because we're here. Roll the bones."
No sonho a garota que amo está lá e eu nunca a vi antes, como nas outras vezes. Ela está lá e é diferente a cada aparição, porém é sempre alguém a quem finalmente eu posso amar. Eu a quero e digo que quero que ela seja feliz, quero fazê-la feliz, que é tudo o que preciso.
Nós nos beijamos, fim. Pode sair do cinema.
- Sabe o que é - o sonho morde o lábio - é que eu já sou feliz..

terça-feira, 13 de março de 2007

Akrasia

Roy Batty na chuva
no sangue na altura
"Ainda não.. ainda não"


(Blade Runner, Ridley Scott, 1982)

terça-feira, 6 de março de 2007

filetes cortantes de água luz sombra fina aurora boreal

- Por que não nos entendemos?
- Mas de que c@#%lho você está falando?

quinta-feira, 1 de março de 2007

Sapato usado

"Anissei Fuzako Nakagawa Ip gosta de passear pelo quintal apontando a lima branca, o limão-cravo, o caquizeiro brotando, o bambu-preto onde os cachorros se coçam.
“É meu pedaço preferido.”
Faz questão de indicar ao visitante as flores que estão se abrindo, camélias, bicos-depapagaio, antúrios, orquídeas, o trevo do Japão…
“As plantas me fazem viver.”
Fuzako tem 75 anos, mora no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo, e está entre os 19 voluntários que doaram seus corpos para ensino e pesquisa. Quando morrer, vai virar “material didático” dos estudantes da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, como ela mesma diz.

Quatro anos atrás, enquanto Fuzako visitava um amigo doente e passeava pelo pátio do Hospital São Paulo, se lembrou de uma notícia em jornal alertando para a falta de cadáveres nas escolas médicas.
“Um jovem de jaleco branco passava por ali e eu lhe perguntei como fazer para doar meu corpo. Eu já sabia que depois dos 60 anos não se pode mais ser doador de órgãos, só os olhos. O jovem me levou até a sala de Ricardo Luiz Smith, chefe da anatomia da Escola Paulista, que me deu uma aula sobre dissecação. O professor também falou demoradamente da importância que meu gesto teria para os estudantes. Apenas não me mostrou o laboratório com os corpos. Eu tampouco quis vê-lo.”

Dias depois, Fuzako assinou um “termo de doação” em que deixava expresso o “desejo” de doar seu corpo, após o óbito, “em favor da Universidade Federal de São Paulo”, a Unifesp. O termo foi feito em duas vias e a assinatura reconhecida no Cartório de Registro Civil do 18o Subdistrito, no Ipiranga. Duas testemunhas também assinaram o documento.

Quando Fuzako morrer, não haverá enterro.
E já avisou que não quer velório.
Seu corpo irá para o laboratório de anatomia da faculdade, onde será preparado em formol diluído a 10% e depois dissecado pelos estudantes.
“No velório do meu amigo vi as pessoas sonolentas, abrindo a boca. Não quero que se cansem por minha causa, nem que alisem minhas mãos frias”, ela diz com um sorriso tímido.
“Prefiro que alisem minhas mãos enquanto estiverem quentes. Quando morrer, vou servir menos que sapato usado. Se minha carcaça puder ser útil para outros, já será minha glória.”

(Revista Piauí)

Roll the bones


(www.brickshelf.com)