segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

átomo

átrio
atônito
artista

domingo, 25 de fevereiro de 2007

átomo

ato
autônomo
autista

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

carne solar

desfile na avenida
a última serpentina
crença na comunicação

domingo, 11 de fevereiro de 2007


(Pro Dia Nascer Feliz, João Jardim, 2006)

"Cécile Ladjali: A escola não deveria ser uma escola de lentidão? Lentidão que se oporia à absurda velocidade dos tempos modernos, que parece incompatível com os ritmos da criança e a necessidade que ela tem de ter o seu tempo... e também de o perder?

George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: «Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.» E é terrivelmente difícil.

Cécile Ladjali: Paciência, simplicidade, despojamento. Para trabalhar com os meus alunos, preciso de uma mesa, de um lápis, de um livro. Penso que os alunos perderam esta relação indispensável com a simplicidade, com o espanto simples ― se é possível que ele seja simples ― diante de um grande texto. O que é desastroso ― falava-se de técnica e dessa falta de gratuidade no acto de aprender ―, é que os nossos alunos são terrivelmente pragmáticos, querem constatar os resultados imediatamente.[...]

George Steiner: Cécile, escreva no quadro a frase de Martin Heidegger: «Se quereis respostas, fazei ciências. Se quereis perguntas, lede poesia.» Isso ajuda, porque também é um exercício de paciência.
[...]
Sempre disse aos meus alunos: «Não se negoceiam as nossas paixões. As coisas que vou tentar apresentar-vos são coisas de que gosto muito. Não posso justificá-las.» [...] A pior coisa é tentar uma dialéctica da desculpa, da apologética, o que eu censuro ao ensino actual, e de que você parece ser uma belíssima excepção; é a apologética de ter vergonha das paixões. Se o estudante sente que somos um pouco loucos, que estamos possuídos por aquilo que ensinamos, é já um primeiro passo. Não vai estar de acordo, talvez se ria, mas ouvirá. É nesse momento milagroso que o diálogo começa a estabelecer-se com uma paixão."

(nocturnocomgatos)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Escrever sem borracha

De dois em dois anos, se você tiver sorte, acontece uma experiência em seu cotidiano que te faz sentir a textura das realidades novamente.
Se você quiser isso.
E eu quero.
Se você não quiser também.
E eu também não quero.

Então resta o quê além de lutar para "querer isso" mais do que não querer?
Esse papo de sentir a vida e do outro lado a comodidade de tudo instantâneo do mundo material. Compromisso. Download. Almoço à la carte. A vida que você leva. Puta que pariu.

Hoje.
Um rolê pela cidade no pedal, bike nova, pessoas diferentes, vontade de sentir o mundo então. Até porque o bagulho explode depois de um tempo, como essa cidade. Solidão de sempre e formas de como enfrentá-la.
Encontros. Não pela tv. Não pela tv-janela-de-carro. Se você quiser isso e se não quiser. Não pela internet, essa merda maravilhosa que vicia como heroína. Não convivo com ninguém do meu bairro verdadeiramente mas participo de listas geniais da rede e venho para escrever esse blog inútil sem fazer idéia de como isso se integra nos meus neurônios não virtuais de quando se desliga o pc. Não que eu seja o cara mais sociável das redondezas e queira sair beijando as pessoas ao vivo, é bem possível que eu afaste as pessoas direta ou indiretamente e não consiga conviver com as pessoas reais, é foda. E talvez eu não tente o bastante. Então de novo, puta que pariu.

Encontros hoje de outra natureza dentro da piscina cheia das percepções e acontecimentos líquidos transbordantes no espelho d'água oracular à céu azul e aberto.
Se eu pudesse contar do Val do boteco metal na Santa Cecília que é "um lugar do caralho", da Patrícia em Perdizes num feliz acaso, da conversa virtual com a minina punk que eu gosto e a vontade que deu de entrar numa banda e os e-mails que eu mandei ou do carinha perdido da ZL na Barra Funda e depois aquele documentário belíssimo "Pro dia Nascer Feliz" ou do irmão que eu pude ajudar que tava com a moto fodida na Penha e que depois ainda fomos tomar "umas brahmas" e o cara me falou de seu trampo de produção de rap, a cena de contestação hip hop que já era, o Sabotage, o sequestro do Olivetto quando ele viu o velho no porta-malas de um tempra, ou a viagem dele pra Goiânia com uma mina, o casamento que furou, e eu também que falei do cotoco que de certa forma figurativa levei recentemente e pra melhor e várias outras coisas em nossa conversa cem por cento.
E não sei como integrar isso na minha vida e esse foi também um assunto.
Como disse o João em sua espinha, "coisas que separadas tem nome mas que juntas não."
Porra, as pessoas se reúnem para beber é para desabafar suas dores, para com isso rirem e poderem juntar um pouco dessa ansiosa separação dos elementos, pra que mais foi inventado o vinho desde sempre? Então por que eu não posso lançar minha dor na mesa? Só eu tenho que ser indestrutível ou um iluminado de merda que vem escrever esse monte de 0 e 1 para uma multidão fantasma?
"É mano, é osso, faz qualquer coisa mas faz, se seu lance é pedalar de madrugada, andarilho da noite, e encontrar as pessoas e foi isso o que você fez e daí juntar cem, duzentas pessoas para saírem nas ruas e pararem numa emissora de televisão e mostrar que o bagulho não está certo, que tem que mudar, então se for isso, vai."
O cara era da hora. Lá na mesa da Led eu ainda me sentia como sempre distante ou sem poder oferecer muito substrato ainda que conversávamos. Mas tinha algo mais estável e silencioso em algum lugar que ia na respiração. O que percebi que pude oferecer foi aquela ajuda que ele considerou raro, só isso. Três motoqueiros já tinham passado por ele, que estava com a moto arrebentada de um róla na rua da Unicid, e não pararam, e de repente aparece um "alemão louco de bicicleta" e resolve acompanhá-lo até o posto na Celso Garcia onde ele podia deixar a moto no estacionamento e voltar pra casa.
Talvez porque minha vida parece virtual e idiota.
Talvez porque eu podia fazer aquilo.
Coisas que separadas têm nome. Sensação de intenso desvario de não achar intersecção visível. Então eu quis conter o sentimento da coisa junta sem nome enquanto voltava da Led Slay agora de madrugada.
Eu quis que ficasse familiar...Eu quis...mudar...
Sei como é esse sentimento e sei como é raro, tanto quanto alguém parar pra ajudar um preto na rua depois da meia-noite com ninguém mais à vista.
E sei como não consigo exprimir isso exceto dizer que é algo de estar presente e também de saber o quanto difícil é. Porque vem da mesma falta de não saber exprimir uma cor e um contraste próprios à minha vida.
Eesse dia foi qualquer coisa de estar com os pés de novo no chão (ou as rodas da bike no asfalto) como raramente consigo fazer. E não porque eu deva estar normalmente em mundos maravilhosos, pode até acontecer, mas não é incomum que eu apenas não saiba onde esteja, esse garoto... Dois em dois anos. Mas aí essa coisa feliz-triste de sentir que dá pra ter uma vida melhor e com mais realização e presença e mais uma frase que me vem com toda a certeza e é bem o que me enche dessa felicidade triste que não dá pra explicar:
Estou despedaçado, nada para unir por muito tempo.
O que foi já foi, eu ouço dizerem.
Mas quando você sente que virou a página?

"Escrever sem borracha", foi o que o camarada da moto, que chama Fernando, me disse.
Porra, tem gente muito legal nesse velho mundo.
Agora lembro do que a Maíra me falou, que ela também não conseguia ficar perto das pessoas de quem ela gostava.
POR QUE ISSO, DROGA?!!!!!!
Eu enxergo esse o cerne dessa questão.
E então, de dois em dois anos, se você tem sorte, surge isso que não é um post mas um saco bem grande e cheio e também uma vontade de rir e estar feliz em plena madrugada louca te mostrando que existem experiências e pessoas maravilhosas pra te lembrar a ficar vivo de novo.
A ficar mais vivo.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Estrela da Manhã


http://www.3dactionplanet.com

Quando buscou lograr seu intento, a força e a amplitude do agir concentrado lhe foram atribuídas como bolas de fogo azul de meio metro e um abalo sísmico não-registrado que o levaria a qualquer lugar depois dos portões, de bicicleta por estradinhas vicinais e depois acampado em frente ao lago de fotoplânctons como minúsculas lamparinas anteriores ao Caos e ao Pedágio. Eis que o vemos na travessia em alto e perigoso mar de ilha a ilha nadando sob ondas revoltas com a companhia de dois golfinhos, havia cem metros da terra firme quando se engasgaria terrivelmente de relapso ou perto da noite, caindo em tenebroso abismo e puto nas chamas bêbadas irradiantes até a madrugada do singelo sorriso da garota de arco-íris que o fez cegar, anjo belo e de muitos nomes, anjo tolo e terrível, Portador da Luz ou Lúcifer, o de muitas formas que caiu por nove dias, Estrela da Manhã.