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De repente vem um ano e você simplesmente tem mais fibra.
Fibra de perceber. De suportar.
Percebe que não vai ter explosões nesse natal a não ser de artifício.
Que é tudo armado, como na tevê, "a magia do natal e blábláblá".
Lembra da tristeza de cão que sentiu em alguns anos atrás, como se tivessem te enganado, apunhalado mesmo, porque por mais que negasse havia aquilo que ardentemente esperava lá no fundo, essa "magia" de merda, essa que não acontecia nunca e então era ficar ali com aquelas caras de sempre nada mágicas, você mesmo, o mesmo.
Não dessa vez.
É sem explosões a não ser as de artifício.
E tudo bem.
O natal nunca mais foi o mesmo e nunca mais será.
Você não volta a ser o que era, isso não acontece.
Mas tudo bem também. Você deixa isso pra lá, é assim, cada ano vai ser mais um pouco de aprendizado na arte de não ficar inteiramente louco com a vida. E que natal afinal é doação. O que você pode doar? Você que está preso aí dentro de você, o que pode doar de você?
Eu só queria pôr um pouco as coisas pra fora do meu jeito.
Sinto essa...prisão.
Sua prima te abraça e diz que te admira e que entende o seu jeito, e que não importa o que as outras pessoas da família possam pensar de você e poxa, isso foi bonito da parte dela, quem mais ali iria me dizer algo parecido?
Abraço ela, abraço.
Você sabe que não consegue expressar muita coisa lá em família e nem sabe se tem algo para expressar. Apenas deixa o tempo lá escorrer.
Respira.
Bebe vinho.
Às vezes lembra-se que sorrir é mais agradável do que não sorrir.
Não sabe direito pra onde ir. Para onde ir???
É isso.
Foi bom que conseguiu fazer a introdução na hora do amigo secreto, foi bom ter agradecido ao seu pai antes de dar o presente pra ele, você estava mais sólido, está mudando.
Sim, você queria uma vida mais plena e mais...pra fora. E tudo o que você tem é o que você tem.
E no resto do tempo sente que não tem nada pra trazer pra fora. Sente em tudo ao redor, aquele calmo desespero, o falar agitado e louco, sem sentido. De sentir tudo preso em você, isso que sempre te deixou meio louco. E você se surpreende de achar que mesmo isso está bem.
Será que ainda assim posso ser amado?
Droga, se bobear vou querer chorar, não, não hoje, não mesmo..
Estou velho.
Não ganho mais os presentes de antes, os carrinhos e video-games, a paparicação toda. Não tem mais um borrão na cena como nos sonhos que passavam em alegria e chocolate, na inconsciência cheia de possibilidades e contentamento. Agora tudo ficou real, a tristeza é presente.
Agora meu primo mais novo fica no meu lugar e ganha um computador e fico feliz por ele.
Meu pai está velho. Senta no sofá e cria raízes ali, talvez ronque.
Minha irmã está com o namorado. Acho que ele faz bem pra ela. Ela estava legal, eu acho.
Minha mãe...Não sei o que dizer pra ela, é mais um ano, feliz natal, tudo de bom...
Estamos bem? Estamos felizes? Está tudo bem? Vai dar tudo certo?
Quando que você começa a aceitar que existe mudança?
É por isso que todas as mulheres na sala choram e ficam abraçadas e grudadas quando dá meia-noite.
Eu não sei. Fico olhando tudo aquilo e estou sólido como uma montanha, mesmo depois de todo o vinho. Não me pergunte como. O que eu me pergunto é, como eu consigo sobreviver? Não vejo um palmo à minha frente. Mas logo estarei cantando algo do Marillion, triste e feliz e louco.
E tudo bem que você volta para casa sozinho. É estranho mas é bom.
Não é como era. É outra coisa.
Você observa os outros natais nas outras casas, as pessoas que andam na rua depois da meia-noite, os fogos e os abraços, as pessoas sozinhas passando ou nas varandas das casas, uns tantos olhando pra sabe lá o quê.
Respiro e continuo respirando e quando saio da casa da minha tia e vou para a rua logo me vejo cantando. Triste, feliz, com tudo o que tenho, não adianta, quero ser feliz, quero amar, ser amado, essas coisas bestas.
Preciso cantar. Posso cantar. Isso é tudo.
Pedalo pra casa no ar fresco da noite depois da chuva e canto.
Só assim sinto que posso pôr algo pra fora, expressar o que lá dentro não conseguia sair, não podia, não queria, sei lá.
E poder responder a essa armadilha do tempo da qual também não consigo escapar.
Sim, eu quero desejar felicidade para todas as pessoas.
Feliz natal.


