sábado, 25 de novembro de 2006

veios comunicantes

sabe lá de onde vem tudo isso, são poucos minutos
os veios d´água descem e incham a massa da parede que estoura como pipoca
no outro quarto é uma inundação que segue por baixo da porta até o corredor
entra no quarto da frente por baixo da cama, no baú, no tapete
você não mais se importa de secar os pés no carpete pois ele está encharcado
de repente você está naquela casa do clube da luta e começa a sacar
os baldes cheios e tanto faz pois o chão está com um dedo de molhadeira
você vai tomar vinho e assobia,
purple haze, vamo lá jimi, diga a que veio
e quando não se importa mais mesmo
aí está tudo bem

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

a teia

não sei contar desculpe
eram as tais bolotas de calor de que se fala
condensando os pingos de suor nas testas cheias
da brancura mais inteira de queimar retinas e liquefazer palavras
na fogueira dos jogos clarividentes do velho contador
de adivinhar o que não existe
e o que não se vê no papel liso
como um zumbido da mosca que fez o gato - miauuuu - pular
e empurrar o copo da pia
da água que escorreu
e foi derrubar a menina que sonhava
que chorou um pouquinho
mas se levantou
porque viu então muito atenta
com muito cuidado
o que não sabia dizer
uma coisa cheia de outras coisas
no canto da porta
a teia

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

dor avante desatino

onda

onda

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Dentro da garrafa



Assisti "Sideways" ontem, duas vezes.
Dois amigos dentro de uma garrafa de vinho, cada um deles envelhecendo a seu modo, ganhando complexidade e oxigenações, evoluindo, respirando, liberando odores, decaindo e sendo bebidos pelo tempo.
No filme, há o contraste bem humorado entre esses dois tão nitidamente opostos que partem para uma viagem de uma semana pelos vinhedos da Califórnia, garrafa após garrafa, borbulhando pela obsessão de Miles com a fossa na qual se encontra como escritor e com suas memórias afetivas em relação à ex-mulher e as singelezas poéticas metaforizadas na singularidade existencialista dos vinhos, especialmente os Pinot super-delicados, numa espécie de pileque-visão de mundo in vino veritas com a qual pretende presentear o amigo que vai casar.
O engraçado está no desdém camarada de Jack quanto à essa sofisticação toda já que sua missão é a despedida de solteiro junto do amigo. Para ele o motivo dessa viagem é deixar a embriaguez pesada de Miles para trás e aproveitar a liberdade e seus hormônios masculinos enquanto é tempo de caça, sendo que todo vinho é ótimo, líquido, embebedante, não passa pelos dilemas da existência, ainda mais se torna mais divertido para comer aquela garçonetezinha gostosa do Hitching Post.
Bem, a viagem não sai como planejada.
Se eles se entendem, se podem aprender um com o outro, se isso importa?
Conclusão: dá aqui, vamos abrir a garrafa.

domingo, 19 de novembro de 2006

Parou nada

para a sujeira água
para a pureza
nada

sábado, 18 de novembro de 2006

Acho que estou despedalando

Ai nesse calor
de lírios liláses
raios leizi vorazes
bocas semente
gestos que trazes
suspensas tezes tocadas
veludo coberto das fadas
litografia litúrgica bamba
carne suada no samba
limite do lívido love da dúvida
ali
tênues mamilos rios
escolas capazes do cio
aulas de pétalas
que caem e caem e caem

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Pedaços de aqui e lá







(Fotos: Paula Cinquetti)

domingo, 12 de novembro de 2006

vinte horas de zazen

nos senfins do semblante
o semelhante ganha forma
no pedido de desculpas

pequeno panda

no fundo do couro animal
o inferno não tem fim nem começo
está sempre ao lado
da ferida aberta maltratada

verte o sangue
a raiva e o medo alucinam
um lugar muito quente de vida
com cheiro carregado de morte

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

quem és tu

quem és tu
nos postes acima do mundo
cabos faíscas serpenteiam
cobras famintas prateadas
a super fibra de ótico-deglutição
geleira da noite e memória
quem és tu
montanha oculta e esvaziada
interior sulcado, ouro de outrora
ventre fatigado
exposto e cru no chão venoso de âmbar
inferno mistério do fogo que se alastrou
quem és tu
na cidade que reduziu a rocha
que aplanou o homem como campo de lavoura
como pátio-inseto, lance de sorte
no anseio do tempo
que me obrigas a perguntar

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Fiat 30 Menos



Fiat e a mobilidade por automóvel na cidade imóvel

Como parte das comemorações dos 30 anos da empresa no Brasil, a Fiat está realizando um "simpósio". Apesar de dizer no site que quem está realizando é a TV Cultura e que a Fiat está só patrocinando, o simpósio leva o nome de Fiat 30+. "É a Fiat convidando você a pensar no futuro".

Entre as palestras, está uma com o tema Mobilidade. O primeiro sub-tema dessa palestra me chamou a atenção: "O Carro como Meio de Comunicação e Hábitat Móvel".

Além da ironia de se falar em mobilidade com automóveis na cidade que tem o trânsito mais imóvel do país, ainda estão começando a considerar o automóvel como um lugar para se viver...

Talvez esse conceito esteja se tornando necessário porque o "paulistano médio" perde boa parte de seu tempo livre encerrado em uma gaiola de metal de uma tonelada. A saída mais inteligente seria usar esse tempo para alguma coisa mais interessante (ler um livro ou fazer exercício, por exemplo); a outra alternativa, mais interessante para uma montadora, seria transformar o carro individual em uma clausura cada vez mais agradável, um lugar para se ficar trancado voluntariamente boa parte da vida.

A vida está fora do automóvel. O carro deve ser um meio de transporte, uma maneira de chegar a outro lugar e não um meio de comunicação (de status social?). Ou, pior ainda, um "habitat móvel"!

(William Cruz)


quinta-feira, 2 de novembro de 2006

zen stress

regato tranquilo do filme do Kurosawa
mas tem sempre um nó cego
pra estragar minha iluminação