Just relax

My contemporaries are so in control
Fuck you fuck you I grunt and groan
Stutter stutter can't keep it no more

Children can be cruel she said
So I smashed her in the fucking head
Sorry dear that's the nature of Tourette
(MSP)


"Don't Breathe"


"Síndrome de Tourette





Gisela acontecência

Gisela está na experiência e não na descrição.
Gisela sacode o portão emperrado. "Vai ô filhodaputa"
Gisela não precisa de um sentido, dê-lhe uma suja xícara de café preto e um frio que atravessa osso e ela sai rasgando e dentando às escuras e sem idéia - isto é o que querem dela, o limite.
Gisela é o limite. Nunca esteve tão próxima de si mesma, merecia um Oscar. Gisela é iluminada, não sente dor. Gisela é dor.
Nunca soube o que fazer de si e aí é o melhor, é quando fará o que todos fazem e mandam fazer. De volta pra casa e não há o que se falar, ela nem vai tentar, de olhos cerrados e punhos fechados vai mandar ver nas mordidas e nas rasgadas e dentadas que não precisam de sentido pois é tudo comida e acontecência que quem se importa, nunca houve mais estupidez e nem menos e por menos ainda ela só quer cheirar a fumaça espessa e gordurosa e agitar o café preto amargo e ruim e cínico no frio estourando o osso cinzento de forma que isso deve ser completo e do lado de alguma coisa, da vida ou da morte ou de uma pancadaria budista incinerante que deve rasgar e dentar e chegar sem descrição, doce Gisela, sem querer, direto no osso pronto e no gatilho, era uma vez, ação imediata, pau e pedra e o fim.





Naked in front of the computer*

Fidelidade a um time, fidelidade à música, à razão, ao devaneio, ao orkut, à coca-light ou à tubaína, ao blog, à seres imaginários, à uma cor, uma cifra, fidelidade à alguém, à família, à um movimento, à um ritual, uma noção de imanência, de sagrado, à uma obra, uma construção, às palavras, à uma marca, uma roupa, ao carnê do baú ou à casa do Sílvio Santos em Celebration, Flórida, ao futebol dos reservas da seleção, à uma sensação de gordura na boca e peso no estômago, uma churrascaria, ao índice de desenvolvimento humano, ao celular, ao fim-de-semana, ao índice de meninas comidas sem esforço ou com esforço, à uma idéia de governo, de desgoverno, de vida bem administrada, de vida à deriva, uma idéia de carro, de mostrar quem você é, de ocultar, de passar o tempo, de mexer o corpo, um jeito, uma irreverência, um dia da vida, outro capítulo da novela.
Essas coisas ou o quê você dá de você e como e por quanto tempo.
Mas ver de fora e pensar reflexivamente não vale muita coisa, é mais como um jogo tipo paciência ou aquele outro do come-come. Bem legal mas você joga sozinho. Você joga para esse todo que é um grande nada e que te dá uma sensação boa de liberdade além de todo o tempo do mundo.
O jogo do século: Idéias pré-concebidas super-legais X O bagulho do fluir do momento.
E no jogo real, ao vivo, no campo, é outra a parada e de repente você está pelado e sem subterfúgios e só o que sobra é o que você pode dar de você ou não.
Então você dá do mesmo e muita coisa se repete...
Aí me vejo recapitulando o que rolou com ex-namoradas, tipo do lance melancólico-divertido de bebedeira ou do livro do Nick Hornby, que é daqueles ingleses cáusticos e irônicos, sulfurosos e divertidos.
E fidelidade nem tem a ver realmente só com o lance de não sair com outras pessoas mas tem a ver com isso também e muita coisa que já passou e nessa altura do campeonato não importa e não me imagino com alguém agora.


(Alta Fidelidade, Nick Hornby)

* Naked in front of the computer, Faith No More.





Futebol na casa da Vitória e o futebol que você resolve jogar



Futebol é muito bom. Mesmo que eu não seja tão bom quanto "ele"...
Sempre gostei mais de jogar do que de assistir, exceto quando se fala dos jogos da Copa do Mundo. Acho que gostava dessa arte de poder em dez minutos de bola, conseguir - às vezes - me soltar um pouco no campo, e sem ter tempo pra pensar, ver que as coisas davam certo e saíam bonitas. Ter que agir sem pensar e tocar a bola no lugar certo ou dar um bico que fosse voando contra todo o resto e direto ao gol. É o futebol que você resolve jogar seja ele qual for e é dinâmico e incerto e pode dar errado e pode ser bem legal. Qual o lugar certo e qual o momento certo e o toque certo e como tudo pode se dar tão rápido?
Bem, essa é a mágica.
O futebolzinho no domingo com o Felipe e o pessoal do prédio foi legal. Tímido, depois de cinco séculos sem jogar e porque acho que eu nunca saberei jogar, e chuvoso também, mas legal. Se bem que me esmigalhou, ah...Nem pedalando até Bertioga eu fico desse jeito.
Vai saber, as pessoas aprendem tanta coisa, e tanta coisa idiota ainda por cima, que de repente eu (re)aprendo uma coisa boa pra variar.
A parada é imprevisível e mais rápida que as palavras, um corte por aqui e uma roladinha, uma passada ligeira e um toque que encobre todo mundo na área menos o baixinho que se estica e cabeceia - puta que pariu - e é gol!
Daí que achamos estúpidos os comentaristas de jogos como o esbaforido Pavão Bueno. Na verdade, eles são desnecessários e funcionam melhor quando não aparecem mais do que o próprio jogo que narram (mais uma vez, menção ao Pavão, que tenta eternamente "convocar" o torcedor a fazer da tela o seu altar, mais que o futebol)
Futebol é tão impressionante. A Globo é apenas um cisquinho.
No jogo do Brasil contra o Japão, terça-feira, você saía na rua e sentia o que era um clima de Copa do Mundo. Se você fosse de um outro mundo e pousasse por aqui acho que você piraria sua cabeça marciana. Todas as ruas do meu bairro estão pintadas, inclusive as calçadas, e com bandeirinhas verde e amarela penduradas de canto a canto. As pessoas não tem dinheiro pra muita coisa mas fazem isso e compram tintas baratas e fecham as ruas para curtir tudo isso e pintam e fazem esses murais no chão com o apoio de todos.
Não são poucas as casas que resolveram pintar o próprio muro de suas casas e não só com as cores da bandeira mas com desenhos variados, como se houvesse agora um motivo claro de identidade que pudesse ser externado para todos. Bandeiras, bichinhos, logos e selos de patrocinadores, caricaturas dos jogadores, estrelas, desejos de vitória e sonho e festa.
Essa é sem dúvida na minha opinião, a Copa mais festejada que eu já vi em toda minha vida. Céus, dá uma vontade de sentir mais disso. Por que tudo é canalizado desse jeito?
Não, não vejo as coisas na ótica do ópio do povo e alienação. Cheque especial sim é o ópio do povo. Mas a Globo é uma porra de vinte toneladas de ópio puro também. Não o futebol.
Que seja. Todos correm porque o jogo já vai começar e eu também corro, mas não muito, porque é tão bom sentir aquela vibração e ver os sorrisos e as pessoas se cumprimentando, que vou pedalando sem muita pressa até a casa da Vitória, vizinha de minha mãe, onde vamos assistir o jogo. O nome dela já entra no esquema místico da torcida que todos fazemos, como um aliado do sonho de ver o Brasil ganhar mais um jogo e não só ganhar mas ganhar bonito. E parece que funcionaria.
É assim, esse é o sonho do Brasil que não encontra muito espaço nos dias corridos de salários baixos e do qual os super-meios de comunicação tentam abocanhar suas fatias, que agora irrompe assim, com força inusitada, e de repente sinto que talvez isso fosse o Brasil ou é ou quem sabe será o Brasil ou seria...
E seria tão bom, só que seria não parece uma boa palavra.
Porque vitória talvez não seja uma boa palavra afinal, se você não puder entrar no campo e em sua vida, seja como for, e partir para o futebol de todo dia, aquele que você resolve jogar.





O segredo da Inglaterra







Peter Crouch.
Adorei a do cachorro e a sala de aula.





Odiamos a escravidão



Isso é outra Coisa.






(Piso medieval)

"Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto."

(J.L. Borges, O Labirinto, Atlas, 1984)


(Teseu e o Minotauro)

"Um inseto cava
Cava sem alarme
Perfurando a terra
Sem achar escape.

Que fazer, exausto,
Em país bloqueado,
Enlace de noite,
Raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se."

(Áporo, Drummond)


(Swamp Thing)





In this real life try to be less blind



Encontro essa fita cassete do Living Colours de longa data e vários invernos.
Puta, eu sempre deixava essa fita pra ouvir depois e não chegava a ouvir tudo e olha só que tesão de som!


(Living Colours, Time´s up, 1990)

(This is the Life)

In another life
Your friends never desert you
In another life
You never have to cry
In another life
No one ever hurts you
In this other life
Your loved-ones never die

But this is the life you have
This is the life you have
This is the life you have
This is the life

In another life
You're always the victim
In another life
You're always the thief
In another life
You are always lonely
In this other life
There is no relief

In your real life
Treat it like it's special
In your real life
Try to be more kind
In your real life
Think of those that love you
In this real life
Try to be less blind

This is the life you have





Oração

Às três e quinze entrego tudo para as sombras.
Do teto e perto, antes do sonhar: as sombras altas galgam as duas paredes e projetam um ser não-formado com o centro no contorno da luminária sem luz. O ser não-formado está lá, sem expressão nem espessura e o vejo com o canto dos olhos.
Ele tem um tamanho virado pra dentro que é longe daqui pra ver; não vou falar.
Seu ombro vira-se um pouco e percebo na periferia de minha retina, onde a nitidez se ausenta e os olhos percebem mais do conjunto do campo visual, que a figura desce pelos cantos até virar penumbra dos dois lados do quarto e ganhar base no chão com alguns pés ondulantes, eclipsados por uma geometria de riscos de luz que ensetam o quarto através de frestas na janela balançando um pouco com o vento e junto dele, a luminosidade.
Vejo então que tenho algo para dar, é isso.
É pra você e aí vai: Tome isso aqui, essas revistas, o baú, os livros, os discos, as roupas, bilhetes, rabiscos, desenhos, cartões, os vídeos, fotos, o som, a tv, carro, casa, moto, propriedades, barcos, imagens, receitas de sopa, palestras, delírios, tome também o que eu não tenho e leve tudo com você, leve sonhos, leve ódios e rancores, aflições e dor-de-dente, amores e ilusões, leve tudo o que eu já vi e o que eu nunca verei, tudo o que eu nunca soube o que fazer com, tudo o que recebi, o que eu comprei, o que eu roubei ou imaginei, o que eu senti rasgando em furor, a ingratidão e a mesquinharia, e então leve esse corpo no vento, leve para qualquer lugar e tempo e deixe aqui então, o que você não leva, deixa esse saco vazio aqui dentro para eu encher de ar e fazê-lo passar com tudo o que passa na aurora. Deixe essa respiração nascendo, esse ar passando aqui e continuando, deixe o ar passar por mim e leve tudo o mais e obrigado, vento e sombra.
Boa-noite.

E durmo.





Enquanto estou aqui

Lígia vai preparar o chá verde.
Perguntar o porquê, Lígia sabia, não fazia mais sentido.
Era aquele terrível desejo. Aquele bicho enloucado do terrível desejo de afundar. Era como se matar, talvez, e o desejo ainda a aguardava depois do vale e ela esperava renascer daquele outro lado, outra, nova.
E isso não terminava.
Então a falta de grana para a droga do cursinho e a vaca da dona Carmen com aquele olhar pegajoso e aquele silêncio no quarto branco e aquele domingo que virou do avesso.
Já havia cinco anos. Ela queria cair. Afundar, que é quando você cai e continua caindo, lhe parecia. E como existe todo tipo de coisa que pode te derrubar, ela descobrira no corpo magro, há sempre como levar isso adiante.
Uma vez ela disse para Cris na aula de inglês que caminhava entre os vivos e os mortos. Elas pintavam os olhos e sentiam pena das outras meninas e ouviam umas bandas alemãs assustadoras mas tudo isso era coisa que se encaixava, ou parecia encaixar, como num filme B engraçado e também sério. Agora ela conhecia outras coisas sérias e a Cris estava bem longe, sabe lá onde.
Havia o limiar. Era como uma linha fina esse troço, que parecia importante e era isso, quase invisível, um fiapo de vida prestes a desaparecer a todo instante enquanto se perde...Cinco anos.
Lígia prepara o chá verde. Apanha a caneca do sapo azul no armário, um saquinho de chá e uma colherzinha prateada. Ela antecipa o prazer do gosto amargo durante o ritual da água no fogo.
Um símbolo, como se o recebesse de presente, como se recebesse algo...bom.
Algo...enquanto estou aqui.
A cabeça se inclina pesada para aceitar a solidez de um segundo, de um segundo inteiro. Senta na cadeira, os braços brancos apoiados na mesa branca. Os olhos, cheios de cimento, não conseguem ver direito, e a tarde já ia embora, os olhos que não podem deixar que sejam vistos agora porque estão soltos da face branca e cheios de cimento por dentro. A perspectiva está errada.
Lígia toma seu chá e aqui está sua mente, bloqueada. Sua vida que pesa bem mais do que 49 kg e os olhos que doem, não vêem.
Isso é tudo, ela sabe. Cinco anos. Enquanto estou aqui...
E Lígia sorri de novo, sem porquê. No mínimo a cabeça que pese menos e olhos que olhem e vejam, no espelho, o sorriso sem porquê. O corpo menos rígido que acontece na mente, na argamassa do corpo, sem o cimento.
Na inteireza daquele momento, Lígia sorri de novo, "como um sorriso bem bobo" ela pensa, sem porquê, sem final.





Grandes momentos nos quadrinhos


Lanterna Verde de Neil Adams, 1972.

- Tenho lido a seu respeito...Que você trabalha para aqueles de pele azul. E que num planeta em algum lugar você ajudou os de pele laranja...E você fez coisas consideráveis para os púrpura! Só que existem peles com as quais você nunca se importou...Os de pele preta! Eu quero saber...Como pode?! Me responda isso Sr. Lanterna Verde!
- Eu...não posso...





O poema não é o poeta

Terminei de ler American Gods, do Neil Gaiman, e foi tão especial.
Gosto da citação de Richard Dorson no começo, de "A Theory for American Folklore" de 1971:
Uma questão que sempre me intrigou é o que acontece aos seres demoníacos quando imigrantes deixam sua terra-natal. Americanos-irlandeses lembram-se das fadas, americanos-noruegueses, das nisser, americanos-gregos das vrykólakas, mas somente em relação à eventos lembrados do Velho Mundo. Quando uma vez perguntei porque tais demônios não são vistos na América, meus informantes sorriram sem jeito e disseram, "Eles têm medo de atravessar o oceano, é muito longe", apontando que Cristo e os apóstolos nunca estiveram na América.



Faço meu caminho de volta pela praça da Estrela do Norte onde as molecadinhas jogavam bola e taco no campinho à frente de um pequeno pé de maracujá e ao lado de um grupinho de meninas que andavam entretidas pelos arbustos e a grama alta não cortada, entre risinhos de alguma brincadeira que tinham inventado.
Sinto vontade de dar um chutão numa bola naquele espaço aberto.
Me dou conta de que estou pensando em inglês. "Diálogos escritos não são como as pessoas falam na vida real".
No dia seguinte compraria The Shining, do Stephen King. A realidade é mágica mas não posso descrevê-la. O realismo mágico é o que se faz com uma obsessão com as palavras e o que se busca por detrás elas, como construir uma represa com os personagens em torno de uma trama e depois fazer novamente a água correr inundando aspectos da história com todo o resto que foi represado no esforço de construção.
Está frio lá fora.
- Ei, você parece bem - ela diz a ele.
- Isso é bom. É mesmo? - ele responde, reticente.
- É. Você melhorou?
- Talvez. Quer dizer, acho que não. - e sorri.
- Mas é assim mesmo. Estamos conversando. Isso é bom, não é? - e entrega a ele o cd.
- Sim. Sim...Obrigado. É exatamente isso o que pode ter melhorado. Eu cansei de investigar tanto essas coisas obscuras nas horas erradas. Ou estou me cansando, e muito...É só uma obsessão, sabia? Enquanto estamos aqui, na verdade, eu só quero mesmo poder sentir que você está aqui, me entendendo ou não. Não há necessidade de mais nada a não ser da sua presença, é o que tento me lembrar.
"Diálogos escritos não são como as pessoas falam na vida real."
A água atravessa a represa e o poema não é o poeta.





Quando você atravessa a rua

Então uma coisa é observar.
A outra é fluir.
Viver é observar sem parar.
Viver é fluir sem parar.
Mas agora uma fresta, e sinto...fluir.
Como isso acontece?
Você espera os carros passarem. Em seguida atravessa a rua.
Você vê as meninas e os meninos de uniforme da escola nessa mesma faixa e é como se você...lembrasse.
...
De onde vim? O que estava fazendo? A bicicleta...Não parece importar, não parece exitir. Sou desajeitado de novo (mais ainda) e minha visão das coisas é a de um filme embaçado, são cores e expressões e alguém aparece, a Maíra, com seu sorriso lindo da manhã mas o filme está no foco, não está? E aí ela entra na sala, um beijo e um salto de um borrão de bocas e sensações. Nove horas, a coisa toda se dá de um certo jeito que não tem nada de certo e que não tem nada de jeito, a Luana e a Luciana e sinto isso e sinto aquilo e vou pra cá e vou pra lá e não tem muito certo e muito errado mas todos se movem em direções loucas num campo de batalha, você busca...e cresço para atingir (o quê?), cresço para atingir, não sei e não importa, eu movo (o quê?), eu movo, eu me movo, isso é demais, acho que sou um cara bem legal, há tanta coisa que posso fazer e vou pedalando até à casa do Dênis e como eu amo essas pessoas! Eu me movo! E vou embora só lá pra meia-noite e não tenho medo meu irmão! Os outros têm medo de assalto e tudo mais mas eu pedalo e sei que estou à salvo e não tenho medo meu irmão! Amigos, amizades, acho que estou feliz, sem jeito, certo, campo, sem foco, vejo tudo muito bem, sem óculos e sem borrão, devo ser inteligentíssimo, puta que pariu! Mas às vezes tem coisas que, não sei, e não quero saber, como ontem e o pessoal, o Vinícius, borrão...não sei, o violeta baixa do espectro na luz que dobra, na noite e a dor que pode me destroçar, se fosse só um soco e não é...E aquele fim-de-semana que foi tão bom...E há tanta coisa e lugares e o mundo todo o que é isso, que parece que poderia estourar que vamos crescendo e abraçando...
...
E então você chega do outro lado da rua.

E estou sentado no Açaí tomando um suco de manga e esperado a Suelen chegar.
Mais gente com uniforme escolar continua passando, ou continuam parados na esquina fazendo nada, procurando maravilhas ou fugindo do tédio.
A coisa "que flui" continua e eu poderia me dissolver em outras vidas ou simplesmente tocar seu rosto ou dar um pulo e uma risada e decidir comprar uma planta ou fazer algo idiota ou novo. E continuo observando. É isso o que me faz outro. Mudado. Estou vivo e de olhos abertos.
E frágil.
Então mostro (preciso preciso) o que escrevi pra ela.
Observar sem fluir. Fluir sem observar. Essas coisas. E que viver mesmo só pode ser observar e fluir tudo junto. De alguma maneira...
Ela diz que é "bem legal".
Aí eu penso, seja lá o que se escreva, de que vale ter acesso a tantas idéias se não encontrar uma que seja "minha"? Ou uma que eu chame de "minha" e possa livremente soltá-la no espaço sem medo de perdê-la. Ou de que outros possam não gostar.
Idéias. Relances. Carinhos. Frestas.
Então em alguns momentos uma parte maior flui e lá dentro uma partezinha diminuta fica de tocaia, só de olho, e o tempo é relativo ou mágico, do tamanho de uma idéia ou do girar do ponteiro do relógio até que toca o sinal e acaba a aula e saímos apressados para procurar brinquedos, presença, diversão e mais orações aditivas ou mais outros aditivos mesmo.
É quando você sente que naqueles tempos de colégio havia mais fluidez (blargh de palavra que me lembra da blargh da economia - a nova ciência-deus da existência - mas não consigo pensar em outra agora). E que nesse tempo havia também maior sensação de liberdade, mas quando você pára pra pensar, entre muitas outras coisas, o que havia era menos liberdade.
Sensação. Realidade...Quando separamos essas coisas? O que havia antes que não o sonho?
O sonho, que está ligado com o que é fluido, com o desejo, a brincadeira e a diversão. E mais, está ligado com a base de estrutura deste ser que é parte uma substância e parte outra substância tudo ao mesmo tempo e sem se misturar.
Pois está ligado com o pesadelo de tudo o que dói demais e com o impossível e o absurdo.
E com a esperança.
Continuaria observando e pensando sobre a necessidade de fluir e a rotina que vira a vida de todos nós e o fardo pesado que a maioria das pessoas carrega e da situação econômica (ela de novo) e sobre sonhos que são postos de lado ou que nem sequer conseguem ser sonhados e da publicidade que como falou alguém, levou a alma do povo embora (os sonhos!!) e mais observação sobre o consumo e o jornal e sobre minha própria vida e mais e aí não fluiria de novo e a vida ficaria pesada de novo e ahhhh!
Então chego em casa e que legal, lá vem os dois como que não querem nada e logo já estarão brincando porque é hoje dia de festa, como ontem, e dou a comidinha molhada pra eles.
Amo esses gatos. Caramba, isso é bom.
E é meia-noite e ouço esse programa da rádio Cultura 103.3fm e uau! Música de povos do Zimbabue e Costa-do-Marfim e Camarões e outros muitos lugares que nunca ouvi falar. Podia ser em outro lugar. Podia ser em outro momento. De um outro jeito.
Mas é agora.
Pois minha casa é nessa noite uma pequena toca ou choupana no meio da cidade. Estamos aquecidos e num lugar confortável onde comemos juntos, depois descansamos e agora vemos a lua no lugar mais alto do céu.
No meio de tantas casas e prédios e estacionamentos que espremem e continuam espremendo e espremendo mesmo lá de tão longe e ali, veja, é de uma fresta...
De uma fresta, nessa cidade que não mais espera por nada e que espreme por tão pouco, é que vem, debaixo da terra, e ouvimos um estrondo de água e sentimos o tremor nos pés - não só porque dançamos - mas porque a cachoeira absurda do sonho irrompe desse chão pisado e nos desafia e nos amedronta, água da rocha bruta escura de uma origem, que jorra e eleva num atravessar tetos e telhados cansados, impiedosa hoje, pois continua a subir de prata e vai tocar a lua, subindo ainda mais, quem sabe, enquanto batemos palmas e cantamos nessa noite, agradecendo pela cachoeira e a lua e a vida que está aqui, nessa passagem que nos atravessa em banho e medo e festa, em nós.
Através de uma fresta nessa cidade toco de novo uma riqueza esquecida e sem fim.





"Não sabemos o que acontece. Isso é o que acontece".

...
- Ah, babuíno da bunda vermelha! Você fica aí pulando nessa árvore e nem aí pra essa bunda vermelha gorda balançando, é a sua vida e é legal de ver, mas eu não sei o que fazer da minha...
O macaco mordeu um teco da banana ainda verde e jogou o resto, plof, que caiu no meu caderno. E falou:
- Você sabe muito de observar, né? E de observar a observação e a observação da observação da oitava observação. E pouco de sobreviver, acho. Que dirá viver. É meio assim, uma banana ainda verde que é só passável. Acho que você não quer ou não sabe como encontrar uma melhor, como pular pra sua árvore. Ou as duas coisas.
Sei lá...Continua escrevendo.





Fome total

Bem devagar
abri meus olhos só pra me acostumar
à nova vida cheia de solidão.





A palavra certa no matadouro

Se houvesse um ponto privilegiado dentro de sua cabeça para olhar as águas passando sob a pequena ponte naquela luazinha amarela, então ele veria uma coisa e depois outra e depois mais outra. Como Sr. Sangria, desde o início falando de bolotas doentes e depois bois com o crânio arrebentado por marretas nos tempos em que ele arrebentava crânios de bois e percebia que eles sabiam que estavam para morrer nos corredores sujos do matadouro enquanto eram entuchados no cú por cabos de vassoura com tampa de garrafa presa na ponta e ligada a um fio elétrico. "Eles sentem", era sua constatação, e isso o animava com a sabedoria do assassino.
O boi é empurrado a um corredor.
"Veja, isso é vida, vida, a morte", diziam seus olhos vermelhos e as pálpebras que tentavam erguer-se do cansaço para olhar além, para o sangue da carne azulada e flácida, e o risinho de escárnio que saía de leve de seu matadouro pessoal. Ao seu lado uma mulher perplexa ou indiferente, não saberia dizer.
A partir daí tudo seria uma série de ois e tudo bens que sua tarefa de usar as habilidades sociais pudesse ser útil a manter a maior distância possível de tudo aquilo. Ou de nada aquilo.
Ele estava ficando mais distante, como se olhasse de um telescópio para aquelas cenas, ali depois de Andrômeda ou alguma estrela esquecida no gelo, ou seria aquele outro, um caleidoscópio e aquelas imagens embaralhadas sendo formadas e depois deixando de ser.
Não havia ponto privilegiado.
Quase não havia pensamento, o julgamento das coisas se dava de tropeção, como o pobre boi sendo pego e seu triste fim. Tudo era caos, gelado, perigoso, tedioso e irremediável. Ele não via muita coisa e o tanto que via não parecia ter como ser expresso, não havia tempo, não havia o jogo certo no baralho, o trejeito que se espera, o gesto, então era manter distância. De fato, parece mais fácil matar com as próprias mãos, ele pensou, do que olhar para as coisas e achar as palavras certas, lembrando da conversa estúpida.
Rápido. Às vezes só uma porretada.
Ele foi pra casa naquela noite, esperando pelo telefone tocar ou a campainha, bem no espírito de um homem ajoelhado à guilhotina esperando a lâmina beijar seu pescoço; mas a campainha não tocou.