Teacher don’t teach me nonsense

(Fela Kuti)
Primeira aula.
Senso.
Não-senso.
Um sente.
Um não sente.
Nova foto no álbum.
Resoluta nos olhos de fogo, aguentando
Os punhos para outra resolução.
Quem olha diz que já viu, ninguém vai saber.
Mas é nova.
Quero que você se lembre de chamar o meu nome
Como puder
Me amar, carne
e osso cego.
Eu posso sentir.
Revi Spider, do Cronenberg e não gostei de novo.
Gosto de quando ele é mais visceral. Mas começo a perceber que seus filmes são jogos mentais essencialmente, perigosos sempre ao limite e carregados de uma tensão freudiana, o novo e já velho Pai do Verbo no Ocidente raciocinóide e dual. O teatro do bizarro que atrai tanto (porque repele).
Lembro de uma frase muito interessante dele (do diretor), "o corpo é a prova de minha existência".
Mas que corpo?
E que existência?
Voce vê, voce mede, analisa, mistura tudo, reconstrói, redescreve, cola, mas o corpo não é só um teatro mental. Aceitando que somos divididos e que o corpo faz o que o teatro ordena (e os poderes do teatro social), não é tarefa fácil o movimento de perguntar a alguém, "o que você SENTE?" Porque a coisa complica mesmo quando é voce que se depara com a pergunta ecoando no próprio corpo, para além de qualquer prova.
Na madrugada há um combate de proporções épicas, cavaleiro e seu cavalo e o trovão que irromperá do novo dia.
Então uma resposta, felizmente, nesse meio-tempo-fogo-solitário.
Sem heróis, sem mártires, sem tirar dentes.
Culpa é igual vida estagnada.
Raiva é diferente de violência.
A vida começa num grito que não pede permissão para ser livre.
"Os homens falam ou lutam:
não engraxam as máquinas,
nem mesmo traçam os diagramas."
(David Riesman, Individualism Reconsidered)
"Ao formar 3 ou 4 palavras de uma frase, estamos movendo um número incrível de músculos da garganta, cuja precisão de funcionamento é tão boa quanto a dos dedos mais a do sopro de um flautista emérito.
Aqui, como no períneo, é que se vê bem o quanto o termo músculos "voluntários" é precário - e induz a erros de conceituação. Ninguém engole, ninguém respira, ninguém sequer fala "por querer" como se entende o mover dos dedos das mãos numa máquina de escrever. Ninguém move "por querer" CADA músculo desta região. Elas são em certa medida e de certo modo "voluntarizáveis" mas nunca se poderá dizer que são voluntários desde o começo ou a qualquer momento.
Quem não aprende a move-los (aprender é trabalho trabalhoso e sutil) não os terá voluntários. Para a imensa maioria das pessoas estes músculos permanecem automáticos a vida toda.
Na vida civilizada, a principal função dessa região é a fala. Dois terços das pessoas passam falando, para fora ou para dentro, dois terços do tempo que passam acordadas.
É preciso lembrar que cada civilização define aquilo que considera consciente e aquilo que considera inconsciente - ou exige que seja - inconsciente; em nosso mundo, aceita-se que todas as pessoas estão conscientes do que falam e indiretamente conscientes do que pensam.
Pior do que isso: em nosso mundo, acredita-se que uma pessoa faz o que ela quer.
Dizer que "falo porque quero", "disse exatamente o que pensava" e outras expressões semelhantes, de regra, são afirmações falsas em maior ou menor grau. Falar parece uma sequência ou um fluxo leve, mas na realidade o encadeamento dos sons e palavras é férreo. Desautomatizar a fala é um processo difícil e complicado. Desautomtizar a fala, sentir - próprio-sentir - o ato de falar, captar a organização da respiração e da musculatura articulatória é difícil, mas só assim se pode alcançar silêncio interior, virtude rara de que uns poucos sofrem desde que nascem e que uns poucos alcançam no fim da vida.
Enquanto nossa garganta/respiração estiverem "prontas para falar", enquanto forem sede de tensões musculares crônicas, nós falaremos para fora ou para dentro. Mas falaremos incoercivelmente: a maioria das pessoas passa a vida inteira profundamente identificada e confundida com a fala. E o que é pior: só com a fala.
"Eu sou porque eu penso (falo)".
Descartes já havia dito isso que traduzido fica assim: existo porque falo - o que é a definição do existir social (e psicanalítico!) - mas não do existir em silêncio!
A maior parte das pessoas passa longos períodos da vida com uns POUCOS pensamentos que se repetem, e repetem, se repetem pelos séculos dos séculos, milhares e milhares de vezes...
Ninguém diz porém o essencial:
Enquanto me repito, posso ter a certeza de que nada de novo surgirá em minha mente - em mim.
É assim que a conversa fiada cósmica se faz uma das mais poderosas forças de repressão.
Enquanto falam as banalidades de sempre, NADA mais pode surgir na mente das pessoas, porque o tempo - e o teatro! - estão ocupados pela repetição.
(J. A. Gaiarsa)
"Deus é ato puro".
(São Thomás de Aquino)
Recuperei o que, vinte por cento da saúde do corpo.
Verbos, venham agora, mexer, bagunçar e dissolver um pouco as coisas.
ETHELINE (Angelica Huston): How are you feeling?
ROYAL (Gene Hackman): Oh, I’m having a ball. Scrapping and yelling. Mixing it up. Loving every minute with this damn crew. (sincerely)
I’d like to thank you for raising our children, by the way.
(The Royal Tenembaums, de Wes Anderson)
Veja as voltas e reviravoltas que levam a esses becos sem saída.
Quantas paredes tateadas, corredores percorridos. Já esteve aqui? Em outro tempo talvez, muito tempo atrás?
Quem entende, que está num labirinto de espelhos e no coração o centro, o que você ainda não viu.
Você sente medo meu amigo, já se deu conta? E não será o único sozinho, num certo sentido, mas...
Mas não sei se o medo vai te fazer mais forte de algum jeito ou se vai acabar com você. Está assustado e amedrontado demais e por tempo demais num mundo de predadores com sangue nas mãos, as palavras não chegam, a ajuda não chega nem pode aliviar muito.
O labirinto não tem nome, nem memória ou entorno, não tem saída. Só há o centro. E você, sem tempo a perder, sem tempo a ganhar, no meio disso, fico imaginando se consegue construir um caminho para o amor.
Essa planta abre com a luz.
Aí é que está, na virada do crepúsculo ela já parte para dentro do verde rico e silencioso, imcompreensível e paciente.
O sol vem de novo, é a certeza da clorofila dançarina do reino que não sai da dança, que não volta aonde estava, os compassos se sucedem nas folhas, nunca houve parada, nem verde rico e silencioso, nunca houve compreensão nem mesmo paciencia.
- Mas eu sou humano, ensine-me por favor! Ensine-me seu segredo!
Essa planta abre com a luz.
Mais uma semana
Mais uma, mais uma e
o cansaço se espalha no corpo, em regiões
que não consigo tocar, imaginar, nos dias marcados
no calendário, mais uma semana
- Oi, como está?
- Incrível, maravilhoso, soberbo, espumoso, claro, verborrágico e glorioso.
- Hum...Tão mal assim?
- Ah...não sei se estou aprendendo milhares de coisas importantes e invisíveis ao mesmo tempo ou se simplesmente nada está acontecendo.
(explosão)
"I have crawled so far sideways
I recognize dim traces of creation
I want die in the sommertime, I want die"
O sol aquece minha pele e alegra esse dia. É por um quase que me esquecia dos dias, da alegria e do próprio sol. Vampiros, dizem.
Mas não queimei porque não cheguei a virar um de verdade, os furos foram coisa de pernilongo.
Claro que existem. As crianças-vampiro da casa à frente, por exemplo, dormem agora em suas camas-caixões sossegadas. De noite pode-se vê-las fazendo pequenos ruidinhos como mastigadas ou ligeiras sucções salivosas enquanto emitem frequências e modulações. Há sempre um tremeluzir colorido e ritualístico nas paredes e janelas que se dobram escancaradas até umas quatro e tantas da madrugada, hora de suas aventuras vibracionais para todo o caminho do tempo imortal que não acaba e que também não muda.
Agora o sol chega e é hora deles fecharem as janelas. As vezes há escolhas, outras vezes não.
Então abro a caixa e seis coisinhas reluzentes saem voando, depois mais seis e seis outras tantas quantas borboletas de luz. Isso me intriga, antes não havia caixa.
É quando entram por sob a mesa os dois amiguinhos negros como a noite fazendo pequenos ruidinhos e mordiscando aqui e ali e deitam nos meus pés, com os olhos fechando chineses de sono nesta manhã.