24 DE FEVEREIRO, SEXTA - FESTA DE RUA BICICLOATIVA!!!

Versão em flash. Se não tiver o player pode baixar aqui.

Versão em flash. Se não tiver o player pode baixar aqui.
Pedaladinha suave com a Suco que me pagou um soja mó bom no Black Dog.
Vamos lá Sú, é sábado que vem!
Ela vai com a bicicletinha que faz clec-clec mas dá um rolê bom e elas se entendem. Diz que gostou muito de ler meu blog e eu que nunca lidei com isso e continuei sem saber lidar, não entendia que alguém de repente passa a saber mais de você que você mesmo.
Depois de passar o fim-de-semana mofando no bolôr eletrônico e ouvindo Dio até o ouvido virar do avesso "You've been caught in the middle of madness" e de não comer nada que não estivesse ao direto alcance do braço, ou seja, nada a não ser uma ou duas bolachas de água e vento e alguns miligramas de ansiedade, então finalmente termino a filipeta para a Bicicletation de pré-carnaval e estamos bem empolgados e já vem depois a grande aventura alternativa d'O Carnaval, que começa sábado que vem, Parelheiros, Marcilac, Itapecerica, Embu.
Condição física, status: meio deplorável.
Coraçãozinho: vai viver.
O que mais gostei ao acordar foi de ver os dois pequenos brotos que estão despontando na garrafa de Aladim onde os plantei com água e pedrilhos até a metade. E também de ver o alho-poró que cresce com facilidade e sem pensamento como se fosse natural crescer e crescer e se esticar num espreguiçamento que é sua vida. O café está no fogo.
- Você tá bem?
- Como assim? (resposta errada)
- Você, você tá bem?
- Claro. (isso)
- É que não sei...
- Ah, é essa luz forte do dia, fico com dor-de-cabeça. (certo)
- Voce está bem?
- Claro. (pegou a coisa)
- É que não sei...
- Fui dormir tarde, estive trabalhando. (mais dois pontos)
- Voce está bem?
- Claro.
- É que não sei...
- Acho que estou com vermes, duas pequenas cobras famintas, essas bastardas. (quatro pontos extras)
Pergunte à uma hidra se ela está bem enquanto faz partenogênese e faz crescer outro corpo. Acordo todo dia com a ladainha da metade da laranja são amantes são irmãos e nem sei como começar a habitar esse clone. Viajo por anos-luz em sonhos voadores de praias imensas com rochedos e sóis amenos de se sentir em casa e sou esse, mas não estou mais em casa e esses olhos grudados são mecanismos que não sei operar e sou outro, um trambolho de carne ao redor, então corro para fazer café e só assim, enquanto os brotos crescem.
Pedalo em Nhocuné atrás de uma cerveja. Está garoando e não é bem o que eu esperava. Mas lá pela Xapuri os pingos apertam e sou o saco cheio de Paul Hackett na madrugada molhada e agora isso, o boteco acolhedor que eu havia cogitado está fechado. Nada de cerveja, nada de Henry Miller e frestas incandescentes e úmidas, nada de um canto à salvo nessa noite, mas espere.
Aparece o chileno, o Angelo, de dentro da terra, encharcado como um pinto em sua jaqueta de chuva de motoqueiro e ar desolado, mas está de carro e o carro inútil, sem gasolina, dentro a mulher e o filho e nem faz idéia de onde achar um posto, as ruas vazias. Então eu o levo ao posto e é um rolê de o quê, um quilômetro e tanto, e passamos por ruas de terra esburacadas, a chuva já está toda em mim, em nós dois, sou algum anfíbio pedalero líquido e ele fica falando em castelhano, eu falando coisas desconexas e a gente se entende porque a noite é inquestionável.
No posto estão outros caras abrigados e um preto sai gingando de dentro de um carro com pneu furado e leio em sua camiseta branca "Kaos". Penso imediatamente nas coincidências de Huckabees e pondero sobre a minha. Aí o Angelo quer me dar um dinheiro e eu digo que aceito uma cerveja que ele compra então na loja de conveniências. Você me salvou hoje, é um anjo del Senhor, ele me diz no meio do vento e do castelhano enrolado entre os filetes de água que descem no rosto.
Mas não, não é assim que as coisas funcionam. Deus me disse para sair atrás de uma cerveja e é isso. Talvez ele tenha dito que eu encontraria a oportunidade de ajudar e sentir algum propósito na vida ao invés de nenhum, mas na real não ouvi nada disso, pode ser que o cd estivesse muito alto ali na hora, os ruídos. E falamos sobre o Chile e as montanhas e seu dia-a-dia de há cinco anos aqui no Brasil e já era hora de acabar com aquela intimidade recente e eu fico por aqui, quando o deixo na esquina do bar fechado, tchau Angelo.
Volto bebendo minha cerveja misturada com as gotas que agora diminuíam e com a nobreza de quem salvou o mundo.
Uma história entre outras que parece nascer e se perder nessa mesma chuva.
Não são nuvens fofas de algodão. São castelos improváveis que avançam sobre outros castelos em perspectivas malucas a vinte mil metros do chão e raios como migalhas caídas de rosquinhas dos deuses do absurdo e tudo vai caindo sobre tudo enfim.
Até parece que você está para conseguir ordenar e organizar, dar um jeito sabe, nos blocos, páginas, roteiros da realidade, é como se fosse o Grande Bibliotecário Sério Que Não Queima As Mãos e logo o plano capota de novo e o roteiro pegou fogo, fica mesmo é no parece, então nos damos conta de que é o Grande Caos, que sempre foi o Grande Caos, meu querido, de novo.
Estamos bebendo naquele bar escondido lá na avenida, sem muita conversa, apenas a noite terminando e ela acha que estou escondendo o jogo, como se eu fosse um Paulo Coelho amante-louco-misterioso da Alta Sabedoria Borbulhante mas eu só não sei muito.
Chove sonolento.
É o meu gato, ou era. Ou o bichinho que eu cuidava há algumas semanas.
Acordei na segunda e ele sumido, é tudo o que sei até agora.
Sempre imaginei que algo assim pudesse acontecer, que ele ia encher o saco e bater o pé um dia e tudo bem né, mas não assim, nem sei, droga.
Espero que esteja bem.

Não quero entender
Guerra por seiva parasita
O parênquima só diz que existe
Nas fibras que o fogo excita
E aí é o seguinte, voce não diz para o cara, "pedale mais" ou "questione os paradigmas de movimento" que são coisas que gostamos. Po, cada um alisa o gato que tem. Voce vai no ambito do que pega para o sujeito que é a legalidade e o símbolo visível da autoridade, "eu posso estar aqui, haha!". Mas é aquilo lá, é curtindo uma, ninguém aqui é funcionário público (ah, tirando a Aruana, foi mal Aru).
Porque meio milhão de pessoas pedalando em São Paulo não diz muita coisa para o cara no seu carro confortável, não existem direito, são como um borrão no canto do olho naquela rua que foi "feita para ele passar". Então voce lança uma placa ali pra mostrar que esse pessoal não somente existe como tem o direito pelo código nacional de transito e todas essas leis kafkanianas a circular não em ciclovias de 2 km, mas em qualquer rua, mas afinal, se o direito existe, por que ninguém me avisou, e cade as placas e tudo o mais? Se ninguém pode me dar o direito de viver de verdade com amor nas veias, então é hora do tudo o mais, ha!
Essas fotos e o relato do que rolou estão no apocalipsemotorizado e o Thiago me diz há pouco que as placas ainda estão lá, inclusive a que deixamos na Paulista (!)
Um dia bonito.
Escreveria sobre o dia, ah, seguindo por rolamentos invisíveis ali no fundo com os ajudantes de cenário e mais a vista os atores metaplasmáticos trovoando no palco e queria ir além. Os pernilongos pensam que estão na Ilha Bela e mandam ver seu café-da-manhã - diga-se sangue, diga-se eu. Mas paro por aqui. Entre brisa.
- Sabe, sinto falta das suas conversas - ela disse.
- Hum, não. Não sinto falta das minhas conversas.
Era parte de uma nova resolução de ano-novo, dar um tempo com as minhas conversas ou com vomitos existenciais espiralados em vertigem. Prioridades: jogo de botão, amendocrem e a Brahma em garrafa da tia por R$1,85.
Baixo o Led Zeppelin II e ele dá uma circulada nas veias. Caramba de miragem, cade ela?
Hora perfeita para pedalar. Já me animo a pedalar até o Horto com a Su e mergulhar nisto sugando a medula do dia enquanto viver. Aí paro. Entra a brisa, mais eloquente e pura que este aqui. Tempo de buscar. Tempo de largar no ar.
Mais tarde falo sobre como foi a Bicicletada. Só sei que não quero mais pensar sobre a coisa em si, nem com os rumos que ela poderá tomar.
Como disse Destino a seus irmãos perpétuos, isto deverá ser seu trunfo e tragédia.

No filme After Hours de Martin Scorcese, Paul Hacket entra num bar às 3 da manhã sob forte chuva. Ele está com olheiras terríveis, a roupa amassada e molhada, uma péssima noite. A unica pessoa no bar além dele e do barman era uma mulher, sentada num canto. Então ele se dirige a ela e depois de deitar seu coração na mesa, ela, talvez intrigada com aquela figura insólita e atropelada, mas ainda com algum fiapo de dignidade chamando-a pra dançar, resolve aceitar seu convite.
- Por que você faz isso? - ela pergunta - Por quê é gentil comigo? O que você quer?
Ele olha bem em seus olhos, aquela noite, aquilo tudo e ele ainda ali, até quando?
- Eu...quero...viver.