pedalero
pedalero
É preciso respeitar o espírito da floresta
Algo me alegra.
Que existam árvores com centenas de anos, com centenas de galhos que cobrem um pouco do céu. Que presença não-humana é essa? A natureza... Ela e seu pouco tempo para questões, no entanto é toda aberta e recebe toda a presença humana.
Seria como aquele amassado caderno sempre a receber as idéias de um pedalero.
Seriam somente ecos? Seria algo a mais?
Num abraço: Vou sussurrando as coisas para um velho amigo, como uma brincadeira muito séria.
É preciso respeitar o espírito da floresta, foi o que dissemos hoje.
A gente ri e brinca e quando voce vê, pronto! Tá ali do teu lado, é disso que eu falo.
Que o mundo muda mais depressa que a percepção das pessoas.
Ou será o contrário?
Parece que não dá pra escrever mais sobre isso.
Apenas direi então que hoje foi o primeiro dia em que vi a alvorada lá da praça, embaixo da minha árvore preferida.
Caliandra



Esta é a Caliandra.
Se lhe perguntarem o nome ela ondulará com o vento.
Abrindo as folhinhas durante a alvorada do dia
E fechando-as ao cair da tarde.
Por que é assim? Ela não dirá.
Encravada no cerrado, de onde é típica,
ela encarna este mistério há milhões de anos.
Aproxime-se deste campo seco
de onde a vida jorra submersa.
Perto do veio de onde flui sua seiva
Vibra uma música
que eu não escuto
Seria uma inscrição se pudéssemos ler
Como que entalhada no verde:
"O sol desponta
A semente espera
Este coração nascerá de novo".
No elevador

Não estou escrevendo isto.
É só aqui dentro que acontece.
Vamos ficar bem sim. Foi aquele desenho que pintamos na estrada,
lembra?
A tinta saiu depois de tanto pneu.
Agora está longe de tudo isso, passou com o vento e a chuva
e o sereno da manhã. Agora está muito longe.
Quilômetros e quilômetros para longe levado.
Agora está aqui.
Não se xeroca. Não se substitui. Dói.
Mas estamos vivos e sorrindo em frente ao elevador!
Voce está certa Chinita.
É preciso aprender a levar a vida com menos seriedade às vezes. Não vou me esquecer.
Seguro a bicicleta com força mas quero mesmo é te abraçar, não posso ir sem isso.
Gostei muito de você.
Choramos. Rimos. Rimos de novo. Estamos felizes e tristes.
É assim.
Este último gole de vinho será para relembrar de tudo, agora, como mágica.
Tanta coisa, tanta coisa condensada neste segundo.
Hora de voltar ao princípio.
Renovar-se, certo?
No meio da rua as pessoas cantavam ao redor da fogueira quando voltei pra casa.
Alguns pensavam em começar a mudar o mundo em que vivem.
Uma mudança atômica, lá no interior de seus elétrons bêbados, na raiz da entranha.
Outros pensavam em colorí-lo um tanto, incliná-lo em outra perspectiva.
Talvez mais para esse lado, assim, deformando o que parece reto demais. E um pouco de florezinhas amarelas simples e cheirosas.
Olhei para o alto e vi um céu claro e limpo. Elevado.
Bom sinal.

