pedalero
pedalero
A mais longa respiração
Sem palavras e com raiva.
Ainda falta o principal, a linguagem.
Ou seja, é tudo ainda por ser feito.
Pois alguns poucos não querem falar por nós? E quando descobrirmos que isso nos asfixiou, como ficaremos?
Mas daqui vem vida. Dali não. Peneira-se a separar fiapos, migalhas daqui e de lá.
De onde sopram as idéias?
E se não é neste corpo onde tudo se passa?
E se não foi quando descobri este corpo que passei a pedalar?
Em ruas, em novos cantos da mente?
Talvez a música, a poesia. Não basta um quase nada para algo vir brilhar?
Por que temos a impressão de que o mundo já está todo feito?
Aqui é só começo e não fim de coisa alguma.
Tudo isso me mostraria a vida, mas aflições, oh, perguntas de não pouco o grito.
Onde está a cidade?
Não é o mesmo que buscar esse corpo que me é estranho?
E os outros corpos...Economia, dinheirama, informação quântica e a gestão da alma do faraó...Não são como adornos ou estranhos adereços que tomam para si o domínio de um corpo maior?
Qual é a legitimidade desses filhos da puta?
Nenhuma?
Nenhuma, vírgula.
Ainda nos falta o principal.
Descobrir de onde vem a vida. E depois descobrir uma nova linguagem.
Vem uma longa res-piração, enfim.
Não me parece o que há de mais importante ao fim de tudo?
Richard Rorty
"O engajamento filosófico e político de Richard Rorty foi marcado pelo atrevimento. Filosoficamente, ele criou a figura do “liberal ironista”. Politicamente, ele definiu o militante de uma “nova velha esquerda”.
O liberal ironista seria aquele que politicamente adota a democracia como a situação social na qual quer viver – e por isso é liberal – e, no entanto, não se preocupa em evocar filosoficamente algo como “Razão” ou “História” ou “Natureza” ou “Sociedade” para ser o fundamento da afirmação de que o melhor regime é o democrático e, então, se sentir seguro pela sua escolha política – e por isso é um ironista.
O militante da “nova velha esquerda” seria aquele que não vê utilidade na posição de esquerdistas estadunidenses que fundiram Marx, Nietzsche, Foucault e Derrida para vir fazer “política cultural” no interior das universidades, em detrimento da “política real” que poderia continuar a ser feita considerando os espaços da vida política norte-americana e, inclusive, a do Partido Democrata. A “nova velha esquerda” seria radicalmente democrata, defenderia as ampliações da liberdade tanto quanto as da igualdade, e assim agiria considerando uma “política de resultados”.
Usando desses parâmetros, Rorty, nos últimos vinte anos, tem se dedicado não só à publicação de seus papers mais técnicos em filosofia mas, também, às intervenções jornalísticas que ganharam o mundo, criando polêmicas de toda ordem. Ele compreendeu rapidamente seu papel no cenário internacional. Assim, mesmo vendo todas as feridas expostas pelo ataque terrorista do “September eleven”, Rorty não hesitou em escrever um artigo dizendo que ele gostaria de, antecipadamente, pedir desculpas ao mundo pelo que o seu país faria dali para diante. Nenhum outro intelectual teve a coragem de escrever algo tão contundente. O artigo foi traduzido para vários países e inclusive para o Brasil. Um ano depois, Rorty escreveu o artigo “combatendo o terrorismo com democracia”, oferecendo soluções para o governo estadunidense caso este quisesse realmente combater as “forças do mal” antes que simplesmente amordaçar a consciência crítica do país.
Ao longo de mais de quarenta anos de vida pública, diferentemente de qualquer outro filósofo, Rorty tem ensinado aos que gostam de ser independentes que a filosofia nada é, no campo político, se o filósofo quer ser pertencente a uma “vanguarda”. Ela pode ser algo útil se o filósofo quiser ser uma andorinha que teima em fazer verão quando todas as outras acreditam que, naquele ano, não há como mudar de região uma vez que não encontraram um líder para comandar o bando."
(Paulo Ghiraldelli Jr.)
Placas em minha rua
É preciso desacelerar para ver o movimento.
Enquanto se está dentro do movimento, as palavras e as velocidades se relativizam, bem como esta pobre tentativa de fotografar o inalcançável, sabendo que o divagar liberta mas recria e altera a fotografia.
A resultante é nula. Ao se olhar para trás, percebe-se o rastro e a mancha da velocidade produzida, o que provoca estranhamento, já que em seguida se é puxado novamente para o movimento com resultante nula que o Inácio de Loyola escreveu como uma produção sem fim de vazio.
O tempo deixa de existir como era. Não porque tenha se desvirtuado em sua natureza, mas porque talvez nunca tenha sido algo dado de antemão, imutável, e venha realizar-se dentro do contexto da cultura que, para visualizar esta sociedade pós-industrial, dirige-se, segundo Eugenio Bucci, para o capital materializado em imagem, e o tempo, para o eterno gerúndio, necessário e constitutivo do espetáculo, do qual pode-se estabelecer bases de continuada expansão daquele capital.
As palavras são insuficientes. No terreno da linguagem, onde o espetáculo se desenvolve, temos ruas mais do que incertas para nos mover e não há nada de novo nisso pois a poeira nunca cessou de voar.
Mas aqui no bairro, enquanto isso se desenrolava, sem o meu conhecimento, ele tratou de encostar a bicicleta na mureta e as moças passavam com seus filhos.
Não achou bonito nem feio. Mas houve uma nomeação. De sua mureta, uma placa fincada nesta rua que dizia com todas as letras, enquanto durasse a tinta, que aquilo aconteceu.
Diários de um pedalero
04 de abril de 2004
"Na parede escrevi A Lot of Pain com meus dedos e o vapor do banheiro.
Estou preso e com muito medo, indiscriminado. Não consigo sair. Não consigo ver.
A mãe do Sumô morreu. Quero dar um abraço nele mas sinto-me incapaz de visitá-lo.
O dia passa. Me enfio na noite, mergulho na xícara, o café quente me acalma, o banho quente, a cama e o cobertor. Até que me esquento demais e salto inquieto, de um lado até o outro em busca de mais do precioso silêncio, daquilo que é menos do que parece, do que soa, daquilo que passa, fica, meu espanto.
Tremulamente, sem arestas, claridade, como poderei escrever simples coisa? Simples coisa que seja? Simples?
Pois carrego um saco de dor que se lançou entre o eu e o mundo.
Se eu olhasse para o mundo, seria uma representação do mundo que eu faria. Não se trata de querer saber o que é o mundo real.
É esta porra de dor que carrego."
Idade Média high-tech
"O maior cumprimento que jamais me fizeram foi quando alguém perguntou-me o que eu pensava e ficou à espera de minha resposta. Fico surpreso, bem como encantado, quando isso acontece: o interlocutor faz de mim um uso incomum, como se estivesse familiarizado com o instrumento. Via de regra, quando os homens querem algo de mim, é só pra saber em quantos acres eu lhes avalio a terra - pois sou agrimensor - ou, quando muito, de que triviais novidades sou portador.
Nunca demandam minha polpa: preferem a casca."
Henry David Thoreau
Você então olha pela janela
O ar chega fresco e limpo com a brisa desta manhã.
Logo cedo choveu forte, o que me trouxe grande alegria quando olhei pela janela, os olhos ainda grudados. Tudo começa assim.
Amo a chuva e os longos dias de céu turvo-cinzento. Parece que isso rearranja o mundo, dispersando algumas incoerências, mas antes, vem somente atender o pedido de alívio que faz meu coração com a possibilidade de recolhimento. É como se recebêssemos a chance de afastarmo-nos do brusco e do tumultuado que corre por entre a cidade. Quanto a mim, agradeço por estes momentos. O céu é toda a urgência agora apenas porque cai e ninguém o pode deter. Caindo, mostra outras paisagens que por pouco nos esquecíamos.
Retratar este cenário é como erguer minha alma e então lá está um quadro que fora pintado com vastidão de camadas misteriosas. Tomo este café e é estranho a completude disso.
Sinto-me bem?
Sinto-me feliz?
Sim.
Mas meu corpo não sabe o que fazer quando descubro que esta chuva e este café bastam. E que se tudo explodisse pra sempre não haveria por que reclamar. Toda essa poesia não saberia o que fazer quando percebesse de súbito que passava por dentro de um corpo de dedos móveis, músculos e bolsas internas que pulsavam com sangue e vasos enlaçados, ela mesma liricamente dentro de um caninho de carne.
Logo em seguida vem uma dor de barriga e eu correria para o banheiro.


