terça-feira, 29 de março de 2005

Esse post não existiu

Acordo tarde. São cinco toneladas. Tomo café preto e fica tudo bem, perto de quando ouço a trilha de Royal Tennembaum. Ramones.

Agora baixei Air.

E ontem parei a bicicleta em frente ao banco, com dois cadeados. Lá dentro um homem idoso falava coisas desconexas, incomuns, mas voce podia entender se desencanasse da vergonha de ouvir um outro ser humano. Ele chorava, desamparado, talvez porque lhe haviam roubado. "Pobre sofre, viu seu moço". Parecia não ter conhecimento de que aquele lugar era um banco, onde oferecem um serviço e nada além do atendimento "especial" ao cliente.

Não quero salvar nada nem ninguém mas me emputece que aquilo que eu era "acontecido" no choro do homem sofrido é só um tenue sussurro e fica nestas linhas. São todas as inumeráveis coisas que não lembro de falar porque está passando a novela ou o carro ou sua próxima fala no roteiro. São todas estas coisas que não conseguem existir para além do que é sentido ou escrito e parecem morrer antes de existirem ou desmanchar como um dente-de-leão no vento, no meio desta confusão.

Cabe bem o desenho da Chinita aqui:

segunda-feira, 28 de março de 2005

54

A vida é uma merda. A morte também. Ainda mais morrer com a cara
enfiada na bosta de cavalo. Já estou me cagando todo. O que eu faço agora,
o quê? Vou gritar, cagar nas calças, implorar pra Sant’Ana que me abandonou,
pras Nossas Senhoras que fiz chorar e agora estão se vingando, peço
perdão, é, estou mijando nas calças, perdão, perdão, perdão, Virgem Maria
e Steve Cimento.

– Que diabos fizeram com você na Iugoslávia, lavagem cerebral? Você
não parece mais o mesmo! – tinha comentado Brando alguns dias depois da
sua volta.
Enquanto pedalava, Pierre pensava que o amigo tinha razão. Sentia alguma
coisa estranha: Bolonha não parecia mais a mesma. Mas o que podia
ter acontecido na cidade em poucas semanas? Nada, a ladainha de sempre.

– O Benassi não gostou muito dessa história da Iugoslávia.
– E quem pediu a opinião do Benassi?
– Se o Benassi fala alguma coisa, é recado do Partido. Eles não gostaram
muito dessa história de você ter ido à Iugoslávia.
– Fui visitar meu pai. Teria ido mesmo se fosse na Suécia. Se fosse a
Suécia não teria problema?
– Deixe de gracinhas. Todos perceberam que você andou fazendo umas
coisas estranhas.
– Não tinha outro jeito. E se eles têm alguma coisa pra me dizer, por
que não dizem na cara, em vez de mandar recado pelo Benassi?
– Você é um cretino mesmo. Devia agradecer pelos toques que te dão,
para que não se meta em caminho errado. Se você fosse um pouco mais ao
Comitê Distrital em vez de viver dançando, estaria com os parafusos em
ordem na cabeça e até poderia aprender alguma coisa. Mas não, o mocinho
tem aulas particulares de inglês com o professor Fanti.
– Você tem razão, eu deveria estudar russo, assim, quando a Frota Soviética
chegar, posso servir de intérprete.
– Continue gozando. Mas veja que com essa sua vontade de não fazer
porra nenhuma você não vai pra frente. Além disso, aquele Fanti nem é um
companheiro. Deve ser liberal ou nem isso.
– Pode ser. Mas eu sou comunista. E daí? Vá dizer ao Benassi que cuide
da vida dele, nunca vi o cara apanhando da polícia, enquanto eu, na última
vez, precisei de três pontos na testa. Estranho, né? Nessas horas ninguém
me critica.
A conversa tinha acabado ali. Nicola se limitou a balançar a cabeça,
enquanto dirigia.
Prenderam as bicicletas aos lampiões, ajeitaram as roupas e entraram.
– Na Iugoslávia não existem lugares assim! Certo, Pierre?
– Não sei, eu não vi.

(54, Wu Ming)

quinta-feira, 24 de março de 2005

Critical Mass: This Friday in your city

Date: Friday, March 25, 2005
Time: All Day

To our knowledge the critical mass happens every last Fryday of
the month in many cities in the world. It is an unorganized
coincidence that promotes non-polluting and social
transportation devices: like a bicycle. It is a pacific
promenade in the city.

You can forward this message to a friend.

Join the group on:
http://groups.yahoo.com/group/critical-mass

and post your critical mass links, pictures, flyers, comments...

O que virá se a Bicicletada morreu?...Algo, tem de vir.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Pequenas coisas

Que p@%!

Essa josta comeu meu post!
Vai ficar bem lá no fundo do inconsciente do oceano virtual e ninguém vai jamais saber que droga que eu teria escrito, lindo.

Se voce deu uma busca por josta, eis aí.

terça-feira, 22 de março de 2005

Redemoínho



Foi (será) na noite de cinco de abril.
Todos os segundos que já roubaram do mundo e enfiaram em apólices de seguros (e que talvez já foram vendidos), pois eles explodiram numa torrente criminosa de espanto jorroso, um jato alongado para tantas direções além de ponteiros e distancias que Dito dobrou a língua, enrolou a letra e desatou atonito e afonico numa incoerencia de poder prever quando surgiriam mulheres frígidas com roupas listradas logo que saíssem de lojas recém-inauguradas a procura de certas cifras e apartamentos.
No meio do redemoínho rodamos com ele.
E Dito não queria papo e nada de imensidão renovada; aquilo tudo que fosse o cenário de sua cachaça estufando e esticando todos os cantos, a barriga da sua realidade, como quem estica um couro brabo. Foi na noite em que olhamos para os relógios acrescidos de todo o tempo que os putos nos haviam roubado.

segunda-feira, 21 de março de 2005

Artigo

Comece o ano parando de fumar

Para a Organização Mundial de Saúde, se não houver uma campanha agressiva contra a prática do fumo, o número de mortes por males causados por cigarro pode dobrar até 2020.
(No século XX foram 100 milhões de mortos pelo tabagismo segundo a OMS)

Acender um cigarro há décadas significava glamour, beleza e elegância. Astros americanos como o eterno 007 Sean Connery e Rita Hayworth atuaram em cenas mundialmente conhecidas por suas tragadas. Quem não se lembra da cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem? Sharon passa a cena acompanhada de seu sexy cigarro. Mas o culto à saúde e ao corpo leva a nova geração de artistas a buscar recursos mais saudáveis de sensualidade. Hoje, ninguém quer ver sua imagem vinculada ao fumo e o tabagismo começa a ser visto como vício e uma doença a ser combatida. O cigarro é responsável por 200 mil mortes por ano no Brasil. Quase 30 milhões de brasileiros são fumantes e 80% destes querem parar.

No mundo, um bilhão e 200 milhões de pessoas fumam, e 200 milhões delas são mulheres. Por ano, cinco milhões de pessoas morrem de complicações geradas pelo tabagismo, o que representa mais de dez mil mortes por dia. Para a Organização Mundial de Saúde, se não houver uma campanha agressiva contra o fumo, o número de mortes pode dobrar até 2020. O Brasil faz a sua parte. A criação de uma Associação Brasileira para Tratamento e Controle do Tabagismo (Abratt) é um passo importante nas ações de prevenção e tratamento da dependência de nicotina. A medicina conta com armas (gomas de mascar e adesivos de nicotina, assim como medicamentos orais) para vencer a batalha. Estas medicações diminuem o sofrimento da síndrome de abstinência, enquanto o novo ex-fumante se adapta à vida sem cigarro. Sem a nicotina (a substância que vicia), o fumante fica irritado, insone e com ânsia em comer. O apoio farmacológico reduz a irritabilidade, a ansiedade, a dificuldade de concentração, a fissura e o apetite.

Paralelamente, uma readaptação psicológica vai se realizando. Seguramente o fumante deu mais tragos em seu cigarro do que beijos em alguém. Sem o hábito de fumar, há que se preencher um vazio, e o apoio psicológico é fundamental. Hoje quem quer parar de fumar encontra ajuda em hospitais da rede pública no País. O tratamento inclui medicamentos associados à terapia. A única medicação oral e sem nicotina aprovada para este tratamento é a bupropiona. Além de minimizar a síndrome de abstinência, reduz a vontade de fumar e de comer – o que detém o ganho de peso. Não há tratamento ideal para deixar de fumar. O melhor é o que o fumante escolhe. Para quem não gosta de tomar medicação oral, terapias de reposição de nicotina são uma boa opção; para os que não desejam usar nicotina, ou mulheres que temem engordar, a bupropiona deve ser a primeira escolha. Para os mais inseguros, pode ser necessário usar as duas classes de medicamento. Mas uma coisa é certa: hoje não se deve ter medo de tentar parar de fumar. Não é tão gostoso quanto almoçar fora, mas é mais fácil do que se imagina.

Analice Giglioti

é psiquiatra, chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e diretora da Associação Brasileira para Tratamento e Controle do Tabagismo (Abratt).

sexta-feira, 18 de março de 2005

Corrente

Já me falaram tanto disso que eu to ficando preocupado, vou andar com duas correntes pra prender a bike agora. Bom, é meu meio de transporte né. Não queria me encanar mas acho que já encanei.

Hellblazer


(Constantine, Hellblazer)

Acordo com uma ressaca tranquila depois de muito vinho.
Mas exausto...Festa, todo mundo, superfícies, cascas. Fiquei vendo Baraka e ouvindo Misplaced Childhood. Quando vi já estava na beirada para o salto e foi incontornável.

Venho para o centro onde como no Habbib´s. Parecia barato a princípio, R$3,90 por tres pratos diferentes que vem juntos, só que veio uma merreca de tabule, uma melequinha de grão-de-bico, uma colhada e outra merreca de um outro troço com alho. Ainda tive que pedir um pastel de queijo pra não passar fome, ou seja, meia-boca mesmo.

Entrei naquele cinema velhaco lá da República pra ver o Constantine e a atmosfera não podia estar melhor ou mais decadente e suja para ver esse filme. Mas sabia que não podia esperar muito do filme, por isso o que mais curti foi o clima ali mesmo que era bem Hellblazer. Ali não me espantaria se aquele maluco do lado fosse um anjo-caído ou um vampiro de merda...Devia ser.
Pois a atmosfera a que me refiro é a da magia. E magia é assim, ou voce acredita ou não. Só que quando voce decide não mais aceditar não tem mais volta. Por mais que nos falem que hoje "não há mais limites", o sentimento hoje em dia é de opressão, de merda crescendo. E em toda parte, essa espécie de mágica que é um sentimento e uma visão do mundo ampliada e livre, foi relegada ao lixão. Também no cinema a merda está crescendo, e por isso, esperava na verdade pelo pior...Keanu Reeves como Constantine, Los Angeles e não Inglaterra, aquelas computações em CG tipo video-game, que já estão dando no saco..enfim.
As melhores cenas são as com Gabriel, o anjo putão e com Lúcifer, pena que são curtas.

Minhas tripas

Escrever é um revirar das entranhas e o que haja de fluidos internos, enquanto a própria terra ácida e escura vai se revirando lá dentro até o limite da exaustão, do final dos tempos ou da morte.

Poderia responder isso se alguém me perguntasse por que escrevo.
Mas é como o Thoreau dizia, "jamais me pedem minha essencia, ficam satisfeitos só com a casca, o maior cumprimento que jamais me fizeram foi quando me perguntaram o que eu pensava e esperaram pela resposta".
Não penso que demos o devido valor a coisa alguma. É tão vital, a poesia e todas as sutilezas impossíveis de se pegar, que mais ou menos como o ar, se me tapassem bocas e narinas eu morreria, sem nunca chegar a dar valor devido a própria substancia invisivel.

Guerra estúpida

Fico um tempo ali parado junto da bicicleta enquanto carros partiam. Também partiam pedaços deste lugar e os rangidos das latarias polidas e seus motoristas enlouquecidos.
Estamos no meio das explosões. O tempo não existia, como que congelado. Mas havia, pois que uma nota constante, tonica dominante, marcando, movendo a procissão mecanica com toda a glória de uma guerra estúpida.
Falo comigo "não gosto daqui". E me vou, desviando de bombas, como voce faz, ou faria.

Este blog estava fora de órbita.

terça-feira, 15 de março de 2005

O que estou fazendo?

"(...)quando abria os olhos depois de uma breve soneca, ainda pouco seguro de minha existencia, ouvi minha mãe perguntar da sacada com tom natural: que faz voce? E uma mulher respondeu do jardim:´Estou lanchando no gramado.´ Então me surpreendi com a firmeza com que as pessoas sabem levar a vida".

(Franz Kafka)