O grito de Porto Alegre e o BBB
Texto de Paulo Markun
"O que é mais relevante: a quinta edição do Big Brother ou do Fórum Social Mundial de Porto Alegre? A pergunta parece apenas uma provocação, mas vale insistir: para a vida real, qual a diferença entre o encontro de milhares de cidadãos que pretendem ser contra o neoliberalismo, empenhados na construção de uma sociedade planetária centrada no ser humano e a reunião de 14 brasileiros cercados por dezenas de câmeras de tv numa casa-estúdio no Rio de Janeiro?
Os participantes do Big Brother estão em busca do sucesso e da glória, enquanto a turma do Fórum Social Mundial pretende colocar um tijolinho a mais na luta por um mundo melhor.
Tem muito mais gente interessada no cotidiano dos BBBs, essa turminha que faz qualquer negócio ao vivo e a cores em busca da grana e da fama que nos debates de Porto Alegre. E não existe termo de comparação entre o sucesso do programa e do fórum. O Big Brother surgiu no dia 16 de setembro de 1999, num canal holandês. No ano seguinte, o programa aconteceu em 19 países e a partir de 2.002 virou uma febre mundial. O programa mais recente teve média de audiência de 59 pontos e o site do BBB na internet registros quase um milhão e 200 mil visitantes apenas no mês de março.
Além disso, os organizadores do fórum sabiam de antemão que é impossível estabelecer qualquer plataforma comum entre gente e entidades tão diferentes, salvo generalidades como as que ornamentam sua carta de princípios. Em Porto Alegre, nesses dias, tanto vale o discurso do presidente Lula ou de intelectuais renomados, quanto o primeiro encontro intergaláctico de palhaços rebeldes e terroristas poéticos.
O Fórum debate temas complicados como a desertificação ou a sustentabilidade até simples devaneios, sempre em meio a protestos e festas – mais festas do que protestos, já que afinal, esse é o combustível que move a juventude.
O movimento pelo passe livre, que no ano passado atazanou os usuários de ônibus da cidade de Florianópolis vai realizar durante o fórum uma reunião nacional, para reproduzir aquele protesto pelo Brasil afora em 2.005. Esse pessoal garante que a juventude tomou consciência de seu papel revolucionário e de sua capacidade transformadora da realidade, mas admite que ainda não está formado um quadro de revolução imediata. Até os anarquistas instalaram sua barraca no espaço da juventude, onde militantes vindos do país inteiro podem obter apoio e informação. Só não existem mais vagas para os companheiros – está tudo lotado pelos anarquistas mais prudentes, que se inscreveram antes. É o chamado anarquismo organizado!
Mas há quem assegure que esse é o caminho para mudar o mundo. De preferência, sem tomar o poder. É o caso do escocês John Holloway, advogado e cientista político que foi professor da Universidade de Edimburgo, lecionando e leciona na Universidade Autônoma de Puebla, no México, depois de ter se aproximado do movimento zapatista e apontado como um dos esteios ideológicos do Fórum.
Autor do livro Mudar o mundo sem tomar o poder, sucesso mundial, Holloway se define como um marxista autônomo e prega o fim de todos os representantes, repetindo o slogan que surgiu na crise argentina: que se vayan todos. Ele jura não ser contra a democracia, mas a favor de outro tipo - uma democracia sem representantes, que não nos exclua e que seja nossa.
Para reinventar o mundo, o grito é o começo, afirma Holloway. Um grito, o grito de não à sociedade como existe. O grito de não ao capitalismo. Reinventar a democracia, na visão do escocês, significa articular este impulso à auto-determinação. Ele quer mudar a política de organização para uma política de eventos, como o próprio Fórum. Seriam clarões contra o fetichismo, festivais dos não subordinados, carnavais dos oprimidos, explosões do princípio do prazer.
Tudo bem, bacana mesmo. O problema é entender como o grito pode mudar o governo Lula, a economia mundial, a vida de todos nós...
A Globo já garantiu que o Big Brother irá até 2.007 pelo menos. Quanto ao Fórum Social, tem muita gente boa batalhando para que ele aconteça novamente no ano que vem, quando deixará Porto Alegre. Mas será que esse sexto fórum resultará em algo mais do que festa e grito?"
Ontem aconteceram 8 parágrafos inteiros
Então segui para o Sobraphe de bike. Respirei um ar tenebroso e sujo e tive dificuldades para pedalar. Pensava que as ruas são cada vez menos para as pessoas mas para aqueles cercados por latarias e com ar condicionado ligado. Continuarei pedalando, nem que seja de máscara, o rosto todo preto e uma faixa "lugar de bicicleta é em todo lugar".
O site enfim foi pro ar no endereço certo www.sobraphe.org.br, fiquei pusta feliz.
O Messenger é um programa impressionante. Estamos ligados e não estamos. Estamos conectados e não estamos. Estamos disponíveis e não estamos. Essa multiplicidade de sentidos na virtualidade é como estar falando com alguém, mas com um pezinho pra fora do ciberespaço que voce sempre pode usar como saída.
Fiquei vendo um pernilongo pousar no meu braço pra almoçar. Suportei a aflição pra ver como era o almoço, no caso, do meu sangue. Depois de um longo minuto sugando na miúda, a barriguinha dele ficou inchada e vermelha e não suportei mais ser roubado daquela maneira; dei um peteleco e ele voou gordo com meu fluído e minha incomum boa ação do dia.
Vi um bichinho estranho parecido com uma pequena sujeirinha, talvez a melhor forma de mimetismo numa cidade como São Paulo.
Passei no cruzamento da Brigadeiro onde antes de minha viagem pro Fórum, eu havia colidido com um carro. Não foi nada de grave ainda bem, nem a bike estragou, ainda que eu tenha trombado na porta do carro e caído. O que me deixou triste e com raiva foi que depois vi que meus óculos que estavam dentro de um bolso largo da bermuda tinham quebrado e que o motorista ao presumivelmente ver que eu não tinha morrido deu na tábua. Foi interessante perceber a estranha calma entorpecida e o esforço para entender de quem havia sido a culpa do troço todo que senti ali no momento. Concluí que não tinha sido culpa de ninguém, mas hoje ao passar por lá fiquei puto de novo por causa dos óculos e do cara ter fugido.
Dois yomangos divertidíssimos numa grande rede de hiper-supermercados. A idéia e palavra de ordem do capitalismo é te fazer acreditar que tudo é brilhante e mágico principalmente porque pode ser adquirido na loja mais próxima. A condição para este modelo é voce se matar e diluir todos seus valores num grande caldo indiferenciado até que ocorra um upgrade de si mesmo num outro ser, mais escravo e mais inerte. Não se mate. Se tudo pode ser seu, pegue. Isso é irreverencia de olhos abertos em tempos de ultra-dominação de mercados, é atitude de resistencia. Esteja preparado para ir a "salinha" mas o que poderão te fazer, te matar? É proibido matar pessoas fisicamente embora não seja proibido matar alguém virtualmente. Então voce sabe quem é e o que quer, seja rápido e atento. Leia mais sobre yomango.
Vi uma menina sentada no banco do parque, queria saber o que ela pensava. Ela foi embora e eu nunca saberei desses pensamentos. São coisas a que nunca irei me acostumar.
De volta
Cheguei ontem do Forum e dormi até a noite.
Ainda meio sonado me levantei e pensei que ainda estivesse acampando.
Saí do quarto procurando pelo zipper da barraca mas não havia zipper nem barraca, apenas fragmentos de tudo o que vivenciei durante esta semana em Porto Alegre.
Muito calor e bem mais gente no acampamento que da outra vez, não era fácil se deslocar e por isso assisti a menos palestras do que gostaria. Mas foram muito boas as que participei, como a do Saramago sobre Quixote e as Utopias políticas, as de software livre e revolução digital, que depois teve Gil e Manuel Castells, o problema da água, processos de auto-organização (viagem das boas), além das exposiçoes de fotos, documentários sobre o MST da Bahia que assisti chapado, o filme do João Moreira Salles, Entreatos, que passou no Anfiteatro do Por do Sol, um lugar maravilhoso a céu aberto, as batucadas de Maracatu que me deixaram feliz depois do primeiro dia quando senti inesperadamente uma pusta solidão, e também as rodas de violão, os hare-krishnas com suas dancinhas, as fitas coloridas, a brisa, os anarco-punks, as oficinas de poesia e a percepção de que a linguagem é onde tudo acontece seja como for.
O fato de estar acampando te aproxima das pessoas, pois não há muros entre essas habitações exceto a habitação em si, e assim a gente vive um mundo diferente nestes espaços. É o clima do Fórum ao meu ver. Voce também descobre que solidariedade não é só uma abstração, mas um troço mais do que real, mais do que necessário quando se interage assim de tão perto com outros, sempre tão diferentes, e voce ve que diferença deve ser a regra. Também descobre a necessidade de autonomia do seu pequeno espaço e isso envolve esforço para as menores coisas como tomar banho, escovar os dentes ou pensar no que vai comer hoje.
Agora é tempo pra me readaptar. O que me moveu até aquele lugar foi afinal a minha própria revolução e nenhuma outra e isso segue adiante.
E foi muito bom conhecer tantas pessoas incríveis e de tantos lugares diferentes, o pessoal gente boa de Londrina, Minas, Rio, Vitória, Cuiabá, Canadá, Argentina, Uruguai. Sim, o mundo é sempre mais do que o que pensamos.
Um grande abraço a todos!